Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XLI
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XLI
Entraram.
Reconheci as vozes do doutor, do mano Américo, da tia Domingas e da prima Anica.
Ele dorme, disse a prima Anica.
Sono reparador, observou o médico com um tom magistral.
E logo tomou-me o pulso com a maior delicadeza para não me despertar; tocou-me a fronte, passando por ela a palma da mão, e examinou-me o calor dos pés.
Do mais grave perigo está salvo, disse então o doutor; operou-se uma crise benéfica, e a congestão foi a tempo embaraçada. Respondo pelo nosso homem.
A notícia não pode ser mais agradável, disse o mano Américo; mas eu receio muito alguma recaída...
Não é impossível.
A causa subsiste...
Que causa?
A posse em que ele está da luneta que supõe mágica.
Luneta que é obra do diabo! exclamou a tia Domingas.
Luneta aleivosa e má, acrescentou a prima Anica.
Minhas senhoras, não indiciem acreditar no poder mágico da famosa luneta para que eu não me convença de que devo tratar aqui de três doentes em vez de um.
Essa é boa! tornou a tia Domingas: pois seria a primeira vez que o espírito maligno fizesse das suas no mundo? Bem se diz que os médicos não são religiosos.
O senhor doutor talvez tenha razão, disse Anica; há, porém, coisas que fazem tontear a gente!
Eu creio, respondeu o médico em tom brincão: a senhora, por exemplo, não tem em si o espírito maligno, e contudo aposto que terá feito andar às tontas as cabeças de muitos moços de bom gosto.
Ora, ora.
Mas, doutor, acudiu o mano Américo; tratemos seriamente deste caso: eu também não tenho a simplicidade pueril de acreditar no poder mágico da luneta fatal; todavia meu irmão está possuído dessa ideia.
O que é mau sintoma, convenho.
Muita gente se julga ofendida pela luneta e a teme...
Segue-se que também é preciso tratar dessa gente que padece tanto como seu irmão.
O doutor graceja...
Não; falo sério.
Penso que convinha muito, e ainda mesmo à força, tomar essa luneta e quebrá-la.
Francamente, disse o médico; julgo que seu irmão, iludido por um suposto mágico, tem-se tornado vítima da própria imaginação exaltada no maior extremo; com efeito essa ilusão, de que ele é escravo, assumiu o caráter de mania...
Então...
Ou é possível ou impossível curar-lhe a mania: se é impossível, para que atormentar seu irmão inutilmente? Se é possível, nós o curaremos da mania mais tarde...
Mas...
Agora eu o vejo escapando apenas a um ataque cerebral que ameaçou tomar proporções terríveis, e o ressentimento de qualquer violência que ele sofresse seria capaz de levá-lo à sepultura.
E a influência maléfica da luneta?
Proíbo que contrariem e que desgostem de qualquer modo o nosso doente.
Então ele está realmente doido, senhor doutor? perguntou Anica.
Cuidado, minha senhora; seu primo foi muito seriamente ameaçado de uma congestão cerebral; acudimo-lo a tempo; conseguimos prevenir um caso talvez desesperado, mas qualquer imprudência pode ainda ser fatal.
A minha pergunta...
Foi menos prudente; se seu primo a ouvisse receberia cruel impressão. Felizmente ele dorme.