Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo IX A Luneta Mágica · Capítulo 22 de 112
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Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo IX

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo IX

Tenho na mente uma providência que me é necessário tomar em breves dias; tenho no coração um vácuo que ardentemente desejo preencher sem precipitação, mas quanto antes.

Retirar do mano Américo a gerência da minha fortuna: eis a providência que vou tomar. Acharei um procurador zeloso, prudente e honrado que se incumba deste negócio, e o efetue sem escândalo e sem descrédito de meu irmão, a quem não me dirigirei sobre este assunto, porque me repugna expor-me ao extremo de confundi-lo em face.

Não preciso de informações nem de recomendações para a escolha do meu procurador: a minha luneta mágica me ensinará qual, dentre muitos, merecerá ser preferido.

Hoje mesmo darei princípio a este estudo, aos trabalhos desta descoberta ou preferência.

O preenchimento do vácuo do coração é mais difícil, e há de ser mais moroso.

Estou; mas não é admissível que eu possa viver sem família.

Estou sem família: a visão do mal rompeu os laços que me ligavam aos meus três e únicos parentes.

Essas três afeições, essas três únicas flores do jardim do meu coração, murcharam para sempre, e o meu seio ficou deserto e noite.

Nasci para amar, tenho sede de amor; não posso viver assim.

A família é, na terra, a beatificação da vida do homem; a família é o mundo em festa no lar doméstico; a família é a imensa vida de amor, em que se identificam algumas vidas que se amam, que se abraçam, que se completam; a família é a consolação no infortúnio, o suave descanso no fim do trabalho e das lidas, é o rir de muitos pela felicidade de cada um de seus membros, é, na extrema hora, o colo em que se encosta a cabeça para dormir o último sono, é o pranto de amor que orvalha a sequidão da morte, a mão de amor que, religiosa, fecha os olhos do morto.

Eu quero ter família, não posso viver sem ela.

Estou como enjeitado que sai do hospício; estou só, sem um parente, estou deserto e noite, e aspiro sociedade e luz.

O enjeitado não tem família; mas pode criar, e cria uma para si: procura uma mulher e abre-lhe o coração. A mulher o faz esquecer o deserto e a noite do passado, dando-lhe a sociedade e acendendo-lhe a luz do presente e do futuro.

A mulher é a placenta da família, é a criação privilegiada, a última e a mais mimosa criação de Deus, que, em um sorrir divino, nela derramou a graça que encerra o encanto da vida do homem.

Eu quero procurar uma mulher jovem, bela e pura, que me dê família. Eu estou deserto e noite; quero receber a companhia do coração e a luz dos olhos de uma mulher formosa e santa; quero um anjo, a cujas asas brancas me prenda, para sair do deserto e da noite.

Avalio bem as proporções imensas da minha aspiração; mas a luneta mágica me deixa ler os segredos de todas as almas, e, mercê desse encantado privilégio, hei de achar o botão de inocência que almejo, a noiva-anjo da terra que adorarei perpetuamente.

À mesa do almoço apareci com a minha luneta, e causei surpresa. Disse que, auxiliado pelo poderoso vidro, podia ver melhor do que dantes, embora menos do que desejava; mas, acabando de almoçar e usando da luneta, servi-me de um palito sem pedir que mo dessem.

Diante dessa prova evidente de que já me era fácil distinguir um palito, o mano Américo abriu a boca espantado, a tia Domingas benzeu-se, e a prima Anica consertou com faceirice as dobras e o laço do seu fichu, que aliás não tinham desconserto algum.

Enfim, meu irmão e minha prima deram-me uns parabéns que me pareceram muito dessaboridos; minha tia disse: "Deus te abençoe para que não peques pelos olhos!" E eu despedi-me e fui para o júri.

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