Primeira Parte - Introdução - Capítulo IV A Luneta Mágica · Capítulo 4 de 112
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Primeira Parte - Introdução - Capítulo IV

Primeira Parte - Introdução - Capítulo IV

O mano Américo tem sempre aberta para mim uma fonte perene de consolações; persegue-me, porém, a infelicidade de não saber apreciar bastante a sabedoria que fala pelos lábios de meu irmão.

Já disse como ele me consolava da minha miopia física; pois bem: a sua bondade ia além. Quando me ouvia tristes queixas da minha miopia moral, apertava-me as mãos e falava assim:

- Agradece a Deus esse infortúnio; estás livre de desgostos sem conta, de responsabilidades sem número e de tormentos sem tréguas. Tu não sabes pensar; mas eu penso por ti e por mim. Tu mal dirigirias os teus negócios; mas eu dirijo os teus e os meus. Tu sofres muito menos do que eu sofro, porque eu sofro por ti e por mim.

Que alma santa a de meu irmão!

E, todavia, quando isso ouço, lembra-me que o mano Américo foi o testamenteiro e inventariante nomeado por meus pais, e que até hoje está de posse das minhas heranças, que ele emprega e zela, certamente só em meu proveito, mas sem me dizer como, nem jamais dando-me contas; e, portanto, pensando, negociando e sofrendo por mim o meu pobre irmão!

Dói-me tamanho sacrifício! Ah! Se eu conseguisse tomar para mim metade dos trabalhos e sofrimentos do mano Américo... a minha metade só... para ele não sofrer por mim!

Porém, se por acaso manifesto de leve esse desejo, alvoroça-se o amor fraternal; meu irmão se enternece, abraça-me e diz:

- Inocente Simplício! Não serei tão egoísta que te abandone às ciladas dos homens sem consciência, que devorariam a tua fortuna. A minha dedicação é, na verdade, pesada; mas é um dever, e Deus a abençoa.

Vejo-me, pois, obrigado a ficar devendo ao mano Américo o favor de tomar conta da minha fortuna e de empregá-la por mim. E como é ingrata a humanidade! Já cheguei a suspeitar que a dedicação do mano é mais suave do que ele diz.

A primeira vez que me confessar, hei de perguntar ao padre se Deus abençoa tais dedicações fraternais; é este um ponto que deve ser esclarecido para que seja mais doce a submissão dos irmãos míopes.

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