Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXVIII
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXVIII
E esta!
Por consequência estou definitivamente declarado doido pela opinião pública, que é a rainha do mundo, e cujos decretos não têm apelação.
A humanidade perversa e infame engenhou o mais seguro dos meios para livrar-se de mim: não há recurso contra ela.
Todos os homens, todas as mulheres cientes do meu poder, todos, e com eles e elas todos os médicos, autoridades declaradas e decretadas na matéria, dizem que estou doido!
Não há, não pode haver uma só voz que proteste contra a sentença; porque a todos eles e a todas elas convém que eu seja reconhecido doido.
Há só uma voz que pode e há de protestar, é a minha, a voz suspeita, a voz do doido.
Por consequência estou doido!
E amanhã, ou hoje mesmo, talvez daqui a uma hora, quatro ou seis policiais, quatro ou seis urbanos virão agarrar-me, e hão de conduzir-me ao hospício da Prata Vermelha!
E meu irmão se mostrará compungido, e a prima Anica fingirá chorar, e a tia Domingas rezará por mim nos seus rosários!
E rir-se-ão todos de mim!... e me chamarão o doido!
Meu Deus! estarei eu realmente doido?
Ninguém compreende os tormentos que sofri com esta nova perseguição da perversidade dos homens, com esta ideia da loucura que começou a agitar-me.
O atordoamento da minha cabeça aumentou, a febre devorou-me com milhões de línguas de fogo e eu bradei em alta voz:
Água! água! quem me dá água?