Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo I
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo I
Não me foi possível dormir. Fiquei velando ansioso, a esperar pelo dia, como o preso que espera ouvir soar a hora em que lhe assegurarão a liberdade.
Procurei abreviar o tempo, ocupando o meu espírito; naturalmente, lembraram-me os conselhos que me dera o armênio.
Refleti.
O mágico me recomendara que me abstivesse de fixar a minha luneta sobre o mesmo objeto por mais de três minutos, porque, além de três minutos, ela me daria a visão do mal, em que a salamandra cevaria a vingança da sua escravidão encantada.
Deverei eu obedecer neste ponto ao conselho do armênio?... Compreendo que, pobre de espírito como sou, arrisco-me a errar gravemente, querendo deliberar por meu próprio entendimento, e por isso até hoje o mano Américo, que é sábio e justo, sempre tem pensado por mim.
Todavia, está me parecendo que ver o mal que se contém em um homem, em uma mulher ou em qualquer objeto pode antes ser útil do que nocivo, porque, em todo caso, me servirá para fugir do mal.
Eu não entendo bem o que o armênio chama visão do mal; se, porém, é simplesmente o que significam as duas palavras, chego a presumir que a visão do bem há de, por força, ser mais suave, mas a visão do mal necessariamente mais proveitosa ao homem que faz na terra a viagem difícil e perigosa da vida.
Ora, o que o armênio me proibiu foi a fixidade da minha luneta por mais de treze minutos, foi a visão do futuro, sob pena de quebrar-se a luneta em minhas mãos, e a semelhante calamidade nunca por certo me hei de expor; ele, porém, não me proibiu, apenas me aconselhou que me abstivesse da visão do mal.
Assim, pois, o que mais acertado e prudente devo supor é, se a luneta mágica não for malvada zombaria ou presente da loucura, experimentar uma vez a visão do mal; porque, em todo caso, conservo o direito e arbítrio de limitar-me daí em diante à simples visão da superfície e das aparências, como diz o mágico.
Foi isto o que refleti, e o que pela primeira vez resolvi por mim, sem consultar o mano Américo.
E de novo, nesta noite maravilhosa, veio-me a lembrança de Eva, e reconheci a minha procedência legítima da primeira pecadora; mas, em vez de achar na procedência e no primeiro pecado lição contra a desobediência, achei somente desculpa da minha curiosidade talvez temerária.