Primeira Parte - Introdução - Capítulo VIII A Luneta Mágica · Capítulo 8 de 112
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Primeira Parte - Introdução - Capítulo VIII

Primeira Parte - Introdução - Capítulo VIII

Quando cheguei à porta da rua, senti que alguém me tomava o braço: era o bom velho.

- Quero levá-lo já à casa do Reis, disse-me ele.

Apertei-lhe a mão com o mais vivo reconhecimento e deixei-me conduzir, hesitando entre a esperança e a dúvida.

Enquanto caminhávamos, o meu condutor falava, e eu o ouvia curioso:

- O estabelecimento do Reis é um representante do espírito do século: começou plebeu e já está nobre pela constância no trabalho e pelo encanto do progresso. Não sei se o Reis tem sido agraciado; pouco importa o homem; mas a casa, a indústria, já tem quatro condecorações nobiliárias.

- E o que faz o Reis?

- Dá, reproduz os meios conhecidos, aperfeiçoa-os e inventa novos para se fazer a paz e a guerra: a guerra, dando precisão e segurança às pontarias das peças de artilharia; a paz, oferecendo balanças e níveis de todas as qualidades, alguns dos quais devem poder marcar o peso e o nível dos interesses de quaisquer beligerantes; e, além desses, os mais perfeitos instrumentos para demarcação dos limites dos Estados. Governa nos mares com as melhores bússolas; é senhor do sol, da lua e de todos os planetas pelos mais fortes telescópios; conhece e domina os animais invisíveis pela força engrandecedora dos microscópios; vê o fundo tenebroso das minas; tem o cetro da física, o império da química, a soberania da eletricidade pela magia dos seus instrumentos; marca o tempo, prediz o calor e a chuva; e chama-se Reis porque não é um rei, mas tem o poder de muitos reis.

Eu escutava boquiaberto a concisa explicação de tão extraordinária potestade humana e, quando o bom velho se interrompeu para respirar, perguntei-lhe:

- E um homem como este certamente já tem sido muito aproveitado pelo nosso governo?!...

- Não; o nosso governo encomendou-lhe um dia o mais perfeito pince-nez político. O Reis fez obra de mestre: um pince-nez que, por um dos vidros, deixava ler as lições do passado e, pelo outro, os perigos do futuro; mas o pince-nez não achou nariz de ministro em que se ajeitasse e foi desprezado.

- Mas então o Reis que é? É mágico?...

- Não sei; suponha que seja o diabo. O certo é que ele tem, e isso é o que mais lhe importa, o segredo de dar vista de águia aos míopes mais infelizes, aos míopes quase cegos.

- Por que meio, meu amigo?

- Por meio de vidros e de cristais, cuja concavidade encerra sobrenatural magia; por meio de lunetas de força excepcional.

- E o governo esquece homem semelhante?... Há ministro que não se apresse a comprar uma luneta dessas?...

O velho desatou a rir. Perguntei-lhe qual era o motivo da sua hilaridade, e ele me respondeu assim:

- O senhor é, sem o pensar, sem o querer, cruelmente epigramático: falei-lhe em luneta para os míopes e o senhor procurou logo saber se os nossos ministros de Estado não usavam dessas lunetas!

A simplicidade de um pobre de espírito está sempre exposta às falsas interpretações dos maliciosos.

Eu não era capaz de pôr em dúvida a vidência, a ciência e a sapiência de um homem que chega a ser ministro de Estado.

O fato é a presunção do direito e, para mim, a infalível resolução do problema.

Não pode haver cidadão que seja chamado a tomar, e que tome sobre seus ombros, a imensa responsabilidade do governo do Estado sem que seja reconhecido e se reconheça na altura de tão grandiosa missão.

Em minha inocência, não posso pensar de outro modo.

Para mim, quem é ministro de Estado é sábio, ou pelo menos estadista.

É por isso que, até hoje, quando me diziam que no carro que passava ia um ministro de Estado, eu tirava o meu chapéu e me conservava descoberto em sinal de respeito até que me asseguravam que o próprio ordenança do ministro já estava longe.

Porque no próprio ordenança eu ainda admiro e venero os reflexos da sabedoria do ministro.

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