Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XIV A Luneta Mágica · Capítulo 27 de 112
Obra Menu

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XIV

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XIV

Na escada por onde me retirava para o seio do jardim, quase que em impulso desastrado levei diante de mim um homem que também descia.

Ah! senhor! exclamou ele, voltando-se; não tem olhos ou vem doido?

Perdão! respondi; exatamente não tenho olhos, porque sou míope, e venho doido, porque encontrei no terraço um demônio com aparências de querubim.

Pois quem é míope deve trazer óculos, e quem anda às voltas com o diabo deve procurar antes o inferno do que o Passeio Público!

Mano! disse uma voz dulcíssima; o senhor se desculpou tão cortesmente, que o favor da sua amabilidade exige antes agradecimento do que insistência na lembrança de um acaso que não teve más consequências.

Obrigado, minha senhora, tornei logo, fixando a luneta; eu já nem me arrependo da minha imprudente precipitação, pois que a ela devo o encanto do perdão dado por voz tão melodiosa.

Vi voltar-se para mim o lindo rosto de uma mulher que ostentava todo o esplendor da beleza na primavera dos anos; ela, porém, afrontou com tanta firmeza a fixidade da minha luneta, sorriu-se tão facilmente para mim, olhou-me com tão clara garridice, que antes de cinco minutos causava-me já tal desgosto que, por castigo, nem lhe descreverei as graças da figura.

Coitadinha! Era uma menina que talvez tivesse nascido com excelentes disposições, branda, condescendente, alegre; assim o devo supor, pois não creio que alguém nasça mau e pervertido. Mas os pais, entusiasmados pela beleza da filha, quiseram fazer dela singular maravilha, e a esqueceram cinco anos em um famoso colégio, cuja diretora, antiga florista de Paris, mudara de vocação com os enjoos da viagem transatlântica, e, chegada ao Rio de Janeiro, anunciou prodígios de instrução e educação de meninas.

Nesse internato, onde as educandas de todas as idades se confundem e se acham em contato de dia e de noite com seus diversos costumes, com seus bons e maus instintos, com suas imaginações travessas, com suas malícias enfim, a pobre menina aprendeu demais o que devia ignorar, e quase nada o que precisava saber, e saiu do colégio, corando não por pudor virginal, mas por artifício de namoradeira, não conhecendo o valor de um beijo de seus lábios, nem o preço e a glória das virtudes, sem as quais a mulher se faz objeto de desprezo.

A leviandade do seu procedimento, a palavra desenvolta com que aturdia as amigas, a audácia com que se arriscava na sociedade, sacrificando todos os preceitos da prudência na liberdade exagerada que permitia a quantos lhe faziam a corte, que não era mais suficientemente respeitosa, autorizavam a maledicência que a feria com venenosas calúnias.

O aleive, a mentira, a ultrajavam injustamente com suspeitas cruéis; não era calúnia, porém, a fama da sordícia do seu coração.

Quantos perigos, meu Deus, há nos colégios e nos internatos de meninas! Quantas pobres inocências atiradas a prevaricações possíveis e fáceis! Ah! se eu tiver uma filha, hei de fazê-la instruir-se ao lado e aos olhos de sua mãe; e se então me achar em pobreza, e não puder pagar mestres, minha mulher e eu ensinaremos como pudermos, e o que pudermos à nossa filha, e em último caso ficará ela embora ignorante, mas não será exposta a ser desmoralizada.

Oh! minha luneta mágica! Eu te agradeço esta lição, que me deste.

1/1
Menu

Fazer anotação