Primeira Parte - Introdução - Capítulo IX
Primeira Parte - Introdução - Capítulo IX
Chegamos, disse-me o velho.
Um tremor nervoso agitou-me o corpo todo; mas, ajudado pelo meu amigo, subi dois degraus de pedra e achei-me no armazém do Reis.
Não pude distinguir nem a casa, nem o dono dela; não precisei, porém, de olhos para sentir imediatamente a amabilidade do Reis.
O bom velho expôs as proporções da minha miopia física e pediu remédio para ela; ouvi logo abrir gavetas e, em breve, começou o ensaio das mais fortes lunetas de vidro côncavo.
Reis desprezou os vidros dos números mais altos das vinte e duas forças: principiou por fazer-me experimentar um do grau quatro e perdeu completamente o seu tempo; deixou de lado os vidros côncavos do grau três e deu-me uma luneta da força número dois, e ainda assim não pude ler o título de um livro que me apresentou senão depois que cheguei o livro a duas polegadas de distância dos olhos.
- É muito míope, disse ele.
E desceu enfim, ou antes subiu, ao vidro do grau número um, o último, o non plus ultra dos vidros côncavos, e recuou espantado, ouvindo-me dizer que não via mais nem menos.
- É incrível! exclamou.
- É portanto?... perguntei tão abatido que nem pude acabar a frase.
- Não tenho recurso que lhe aproveite, respondeu-me com tristeza profunda.
Deixei cair a cabeça sobre o peito: a extrema esperança que eu concebera poucas horas antes acabava de apagar-se completamente; tive vontade de chorar e murmurei em tom queixoso:
- E todavia eu vinha tão cheio de confiança! Esperava tanto!
- Que quer?... O poder humano, que é o poder da ciência, ainda não foi além dos instrumentos que inutilmente experimentou.
- Ah! É que o meu amigo chegou a fazer-me acreditar que o senhor era mais do que um simples homem; era uma espécie de ente sobrenatural, um mago, um realizador de impossíveis, principalmente em matéria de instrumentos ópticos.
- O seu amigo, que é também meu, exagerou muito as minhas pobres condições; eu não creio na magia; mas, se lhe apraz consultar um pretendido mágico, é coisa fácil.
- Como?...
- Mandei contratar na Europa um artista de merecimento superior para os trabalhos das minhas oficinas, e chegou-me no último paquete um armênio de habilidade extraordinária, mas que me desagrada por ter pretensões a muito sabido em magia.
- Ainda uma esperança! exclamei; eu me abraço com a mais tênue, com a mais dúbia e até mesmo com a mais louca. Onde está o armênio?...
- Em um pequeno gabinete no fundo da casa, e aí dorme de dia e trabalha de noite, e sempre só: é um maníaco.
- Poderia eu falar-lhe?
- Vou mandá-lo chamar.
- Entender-me-á ele?...
- Fala perfeitamente todas as línguas em que lhe falam.