Primeira Parte - Introdução - Capítulo XI A Luneta Mágica · Capítulo 11 de 112
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Primeira Parte - Introdução - Capítulo XI

Primeira Parte - Introdução - Capítulo XI

Quando, de volta da casa do Reis, me achei a sós na solidão do meu quarto, comecei a sentir espinhos na consciência, temores de incorrer em grande pecado por ir procurar na magia remédio contra a minha miopia física.

Mas, na luta do desejo ardente de ver bem e distintamente, e dos meus escrúpulos religiosos que acabavam de despertar, reconheci-me tão fraco e tão pecador como Eva, porque, pela ambição da vista, deixava-me sempre escravo das promessas do armênio, como Eva se deixou escrava dos conselhos infernais da serpente pela ambição da ciência do bem e do mal.

Hesitei, meditei e, desconfiado da minha miopia moral, resolvi-me a consultar a opinião das três consciências mais sãs que eu conhecia no mundo.

A consciência do mano Américo, o homem que vivia por si e por mim, o tipo do desinteresse e da abnegação.

A consciência da prima Anica, a jovem símbolo do amor mais dedicado e sem sombras do egoísmo.

A consciência da tia Domingas, a velha religiosa e santa, que vivia a rezar e que era toda misticismo.

Dirigi-me ao mano Américo e perguntei-lhe:

- Se encontrasses um mágico que te oferecesse um talismã com a virtude de te assegurar a vitória em todas as eleições de deputados e de te fazer subir ao ministério, que farias?

Meu irmão respondeu-me logo:

- Para servir a minha pátria e dedicar-me todo a ela, eu aceitaria o talismã e o traria sempre comigo.

Achei-me a sós com Anica e apressei-me a consultá-la:

- Se houvesse um feiticeiro que, por artes diabólicas, possuísse e te quisesse dar o segredo da formosura e da vida em constante primavera até cem anos de idade, que farias?

- Abraçava o feiticeiro, tomava-lhe o segredo e pedia-lhe que te desse, mesmo por artes diabólicas, melhores olhos para que visses a minha formosura encantada.

Fui ter com a tia Domingas e fiz-lhe a seguinte pergunta:

- Se lhe aparecesse um homem suspeito de se ter vendido ao demônio e lhe apresentasse o bilhete de loteria em que uma hora antes houvesse saído a sorte grande, que faria?

- Somente pelo gosto de enganar o demônio, comprava o bilhete e, recebendo o prêmio, gastava metade em obras de misericórdia.

Estas respostas sossegaram o meu espírito. Meu irmão, que é a virtude cívica; a prima Anica, que é a pureza original; a tia Domingas, que é a piedade zelosa, não acham que seja pecado aproveitar-se alguém, com intenções inocentes, dos favores da magia, da feitiçaria e até do inimigo do homem.

A educação, os exemplos, as lições da família formam o caráter do menino e preparam o seu futuro.

Eu já estou na lista dos jurados e já fiz parte de um conselho julgador; mas ainda sou menino pela minha miopia moral. Consultei toda a família sobre o meu caso de consciência e todos os meus parentes votaram pela transação com a magia em proveito do interesse pessoal.

Serenaram, pois, os meus escrúpulos, e fiquei resolvido definitivamente a ir ao gabinete do armênio à meia-noite em ponto.

O bom velho, meu amigo, ficara de esperar-me perto da nossa casa para levar-me à do Reis.

Não me despi, nem me deitei; e, quando ouvi o sinal de onze e meia horas dado pelo sino de S. Francisco de Paula, saí do meu quarto, fui de manso até a porta da rua, que um escravo fiel me abriu, e logo depois tomei o braço do bom velho que me esperava, e seguimos para o nosso destino.

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