Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo VIII A Luneta Mágica · Capítulo 21 de 112
Obra Menu

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo VIII

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo VIII

A miopia moral, a ignorância completa do mal e a inocência conservaram-me até esta manhã franco, simples, sem uma nuvem de suspeita na alma, sem desconfiança dos outros, e com o coração aberto, transparente aos olhos de todos.

O conhecimento do mal vai operando em mim forçosa modificação de ideias e de sentimentos.

Já sei que é preciso fingir; já o sei, porque estou determinado a esconder de Américo, da tia Domingas, de Anica e de todos a principal virtude da minha luneta: direi que, por meio dela, distingo melhor, mas ainda imperfeitamente, os objetos.

Vou, portanto, dissimular e enganar: primeira lição da ciência do mal que a visão do mal me está dando; primeiro passo no caminho tortuoso da desmoralização, mas inevitável, porque é preciso dissimular e enganar para defender-me de parentes desamorosos e pérfidos e para, cauteloso e seguro, realizar projetos que desde alguns minutos fervem no meu espírito exaltado pelos ressentimentos do coração.

Nas lutas do mundo devo bater-me com armas iguais às daqueles que me hostilizam: dissimulação contra dissimulação, engano contra engano.

Em uma hora experimentei três desilusões que me envelheceram trinta anos! Os gelos de três desenganos apagaram no meu seio o fogo santo de três afeições profundas, inocentes e puras.

1/1
Menu

Fazer anotação