Primeira Parte - Introdução - Capítulo II
Primeira Parte - Introdução - Capítulo II
Aos doze anos de idade, achei-me no mundo órfão de pai e de mãe.
Eu estava acostumado a ver pelos olhos de minha mãe e a pensar pela inteligência de meu pai; fiquei, pois, nas trevas dos olhos e da razão.
Meus pais eram ricos e deviam deixar-me, deixaram-me por certo, avultada fortuna; quanto, não sei. Meu irmão mais velho, que tomou conta dos meus bens; minha tia Domingas, que tomou conta da minha pessoa; e minha prima Anica, que se criou comigo e que é um talento raro, pois até aprendeu latim, hão de saber disso melhor do que eu.
Dizem eles que a minha fortuna vai a vapor. Ignoro se para trás ou para diante, porque os barcos e carros a vapor avançam e recuam à custa do gás impulsor; mas o meu amigo negociante declarou-me que, por certas razões que não compreendo, nas quais também não sei por que entra a pessoa da prima Anica, devo confiar muito no zelo da tia Domingas.
E eu confio nela o mais possível, porque é uma senhora que anda sempre de rosário e em orações e que, tendo alguma coisa de seu, apesar de tão religiosa, não deu nem dá um vintém de esmola ao pobre que lhe bate à porta, pretextando sempre que tem muita vontade de fazer esmolas evangélicas, porém ainda não achou meio de esconder da mão esquerda o óbolo da caridade pago pela mão direita.
Estou tão profundamente convencido da pureza dos sentimentos religiosos da tia Domingas que, desde que ela tomou conta de mim, vivo em sustos de que algum dia a piedosa senhora mande amputar a mão esquerda para conseguir dar esmolas com a mão direita, conforme o preceito evangélico de que, em sua santa severidade, não quer prescindir.