Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXVIII A Luneta Mágica · Capítulo 51 de 112
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Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXVIII

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXVIII

Além do cupim vi uma aranha.

Feio bicho; era, porém, ele que principalmente dominava o teto do meu sótão.

No centro da imensa teia que se estendia em admirável rede de mil fios entrelaçados por baixo de todo o telhado, o diabo da aranha se ostentava soberana.

A um movimento do ar que sacudia tênue fio da teia, a aranha avançava logo para, se era preciso, remendar ou dar nó à rede; ao toque de um inseto os fios tocados enlaçavam a mísera presa que a aranha ia logo devorar sem piedade.

O sistema da centralização política e administrativa estava ali perfeitamente realizado pela aranha.

Era exatamente como a administração, a polícia e a guarda nacional do Brasil.

Mas a aranha ia em perversidade muito além desse domínio escravizador do telhado.

Feia, assassina, terrível, a aranha excede em crueza a todos os animais irracionais, e, oh assombro! até aos racionais, até aos homens!

Como todos os insetos carnívoros, caça, mata e devora outros insetos.

Pior que os outros insetos assassinos, guerreia e mata os da sua própria espécie à semelhança dos homens.

E ainda pior que os homens, a aranha, o tipo da malvadeza levada ao zênite, a celeradez nec plus ultra, a mais horrível exceção em tudo, a aranha mistura o amor com o ódio e o gozo com o assassinato; a aranha cede ao instinto, obedece à lei da reprodução da espécie, e, satisfeito o império natural da lei, a aranha, como a antiga e fabulosa amazona, ataca, fere e mata aquele mesmo que pouco antes lhe dera a glória próxima de encher de ovos prolíficos a sua tela.

Onde se viu perversidade semelhante!

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