Primeira Parte - Introdução - Capítulo X A Luneta Mágica · Capítulo 10 de 112
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Primeira Parte - Introdução - Capítulo X

Primeira Parte - Introdução - Capítulo X

Entramos para a casa das oficinas, porque o armênio não gostava de mostrar-se no armazém.

Vou dizer com inteira verdade o que ouvi e o que o bom velho, meu amigo, viu e me referiu miudamente, tanto nesta ocasião como à hora da meia-noite, no gabinete misterioso.

Passados apenas alguns minutos, o armênio apareceu.

Era um homem alto, magro e com os ossos muito salientes; trazia os cabelos crescidos, o rosto contraído, a face macilenta, enegrecida pela fumaça; suas mãos enormes estavam empoeiradas, e seus dedos, coroados por grandes unhas, pareciam garras; vestia calças e blusa de pano vermelho.

- Que pretendem de mim? perguntou ele em português.

Não me animei a falar; o bom velho, meu amigo, também não ousou fazê-lo: foi o Reis quem falou por mim, expondo a minha infelicidade e a desesperada esperança que eu concebera.

O armênio se aproximou de mim, considerou-me durante alguns instantes, examinou-me os olhos, apalpou-me os ossos do crânio e, mostrando-se compadecido, disse:

- Não te quero mal, e o dia é mau; hoje é sábado, e os gênios sinistros predominam: escolhe outro dia, e eu te darei a vista.

O Reis fez um movimento denunciador da sua incredulidade.

O armênio encarou-o fixamente e depois perguntou-lhe:

- Duvidas sempre?

- Não duvido; tenho a certeza de que a sua magia não é impostura somente porque é lamentável mania.

O armênio desatou a rir; devia ser um rir medonho, porque foi longa e estridente gargalhada, e porque, segundo me disse o velho, ele não tinha um único dente.

- De que ri assim?... inquiriu o Reis.

- Do triunfo e do mal: duvidam do meu poder, e vou prová-lo; eis o triunfo. Infiltrarei o ceticismo na alma de um inocente mancebo; eis o mal.

Tive um ímpeto de coragem, avancei um passo e perguntei-lhe:

- Dar-me-ás a vista?...

- Sim, e mais penetrante do que a desejas.

- Como?

- A experiência te responderá.

- E tu por que não?...

- Que te importa?... Já o disse: terás vista mais penetrante do que desejas e pensas; queres?

- Por que modo a terei?

- Dando-te eu uma luneta mágica.

- Quando?

- Hoje mesmo e amanhã, na hora em que acabará o dia de hoje para começar o dia de amanhã, à meia-noite.

- E o teu prêmio?

- Será a tua próxima convicção de que é melhor ser cego do que ver demais.

- Aceito.

- É o mal.

- Aceito.

- É o gelo no coração!

- Aceito.

- E o ceticismo na vida!

- Aceito.

- Por quê, criança?...

- Porque eu quero ver.

- Verás demais!

- Aceito.

- Volta à meia-noite.

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