Segunda Parte - Introdução - Capítulo X
Segunda Parte - Introdução - Capítulo X
Entrei.
Eu achava-me fatigado do longo passeio e pedi licença para descansar alguns momentos.
Sentei-me e respirei afadigado.
O Reis se conservou em silêncio até que lhe perguntei:
O armênio?
Sem dúvida está no seu gabinete; não o preveni.
Eu não posso ver o que porventura terá de se passar dentro em pouco; conto com a sua condescendência para referir-me por miúdo o que não me é dado apreciar pela vista.
Pode estar certo disso.
Bem; já descansei: vamos procurar o armênio.
O Reis tomou-me o braço e disse:
Vamos; se ele é, como pretende, verdadeiro mágico, deve ter adivinhado a sua visita; se o não é, surpreendê-lo-emos ou descuidado, ou dormindo.
E tínhamos apenas avançado um passo, quando o armênio mostrou-se à porta do fundo do armazém, trazendo na mão uma lanterna furta-fogo.
Eu adivinhei a tua visita, mancebo, disse ele.
E fitando o Reis, acrescentou:
Reconheça-me, pois, verdadeiro mágico.
O Reis não respondeu; evidentemente ficara confundido.
O armênio adiantou alguns passos para nós, e dirigindo-se a mim, disse-me:
Criança! não te acuso pelo que fizeste: a tua desobediência aos meus conselhos era um fato previsto pela magia; és homem, tinhas de errar, como erraste.
Não errarei outra vez, balbuciei humildemente.
Errarás sempre, e tornarás a desobedecer-me.
Não!
Vê-lo-ás.
Então conseguirei deveras outra luneta mágica?
Sim, se a exiges.
Peço-a de joelhos.
Criança! para que teimas em querer ver?
Porque ver é viver.
Eu te anunciei da outra vez que o que me pedias era o mal, o gelo do coração, o ceticismo na vida, e sabes que não te enganei.
Mas ao menos eu vi, e agora de novo me acho cego.
Criança! tu escolheste um dia benéfico, um domingo, uma hora propícia, a que antecede apenas ou vê despontar a aurora; ainda assim, porém, tu verás demais!
Embora!
Pedes-me uma segunda luneta mágica que te será fatal como a primeira.
Já tenho por mim a experiência.
Será o engano infantil na vida...
Aceito!
Será a credulidade insensata.
Aceito!
Será a inocência indefesa.
Aceito!
Será a zombaria do mundo e a cegueira da razão.
Aceito!
Por que, criança?
Porque eu quero ver.
Verás demais!
Aceito.
Eu o sabia, e tanto que o altar está pronto e nos espera; já evoquei os espíritos elementares: nada falta; vamos.
Mas ao primeiro passo, o armênio levantou a lâmpada, inundou-nos de luz, e disse:
Trazes vestidos de cor preta, que é antipática a Júpiter, cujo dia é hoje...
E fez com a mão um sinal que eu não vi com os olhos; mas a que obedeci, ficando imóvel, e como preso ao lugar que meus pés pisavam.
O armênio saiu do armazém para ir ao seu gabinete.
O Reis silencioso, eu estático, respirávamos apenas, dominados pelo prestígio do mágico que em breve tornou a aparecer, trazendo uma túnica de pano branco bordada de triângulos de prata.
Cumprindo as ordens do mágico, tirei a sobrecasaca, o jaleco e a gravata que eram de cor preta, e vesti a túnica.
Agora vamos, repetiu ele.
O Reis e eu seguimos em silêncio o mágico.