Segunda Parte - Introdução - Capítulo X A Luneta Mágica · Capítulo 73 de 112
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Segunda Parte - Introdução - Capítulo X

Segunda Parte - Introdução - Capítulo X

Entrei.

Eu achava-me fatigado do longo passeio e pedi licença para descansar alguns momentos.

Sentei-me e respirei afadigado.

O Reis se conservou em silêncio até que lhe perguntei:

O armênio?

Sem dúvida está no seu gabinete; não o preveni.

Eu não posso ver o que porventura terá de se passar dentro em pouco; conto com a sua condescendência para referir-me por miúdo o que não me é dado apreciar pela vista.

Pode estar certo disso.

Bem; já descansei: vamos procurar o armênio.

O Reis tomou-me o braço e disse:

Vamos; se ele é, como pretende, verdadeiro mágico, deve ter adivinhado a sua visita; se o não é, surpreendê-lo-emos ou descuidado, ou dormindo.

E tínhamos apenas avançado um passo, quando o armênio mostrou-se à porta do fundo do armazém, trazendo na mão uma lanterna furta-fogo.

Eu adivinhei a tua visita, mancebo, disse ele.

E fitando o Reis, acrescentou:

Reconheça-me, pois, verdadeiro mágico.

O Reis não respondeu; evidentemente ficara confundido.

O armênio adiantou alguns passos para nós, e dirigindo-se a mim, disse-me:

Criança! não te acuso pelo que fizeste: a tua desobediência aos meus conselhos era um fato previsto pela magia; és homem, tinhas de errar, como erraste.

Não errarei outra vez, balbuciei humildemente.

Errarás sempre, e tornarás a desobedecer-me.

Não!

Vê-lo-ás.

Então conseguirei deveras outra luneta mágica?

Sim, se a exiges.

Peço-a de joelhos.

Criança! para que teimas em querer ver?

Porque ver é viver.

Eu te anunciei da outra vez que o que me pedias era o mal, o gelo do coração, o ceticismo na vida, e sabes que não te enganei.

Mas ao menos eu vi, e agora de novo me acho cego.

Criança! tu escolheste um dia benéfico, um domingo, uma hora propícia, a que antecede apenas ou vê despontar a aurora; ainda assim, porém, tu verás demais!

Embora!

Pedes-me uma segunda luneta mágica que te será fatal como a primeira.

Já tenho por mim a experiência.

Será o engano infantil na vida...

Aceito!

Será a credulidade insensata.

Aceito!

Será a inocência indefesa.

Aceito!

Será a zombaria do mundo e a cegueira da razão.

Aceito!

Por que, criança?

Porque eu quero ver.

Verás demais!

Aceito.

Eu o sabia, e tanto que o altar está pronto e nos espera; já evoquei os espíritos elementares: nada falta; vamos.

Mas ao primeiro passo, o armênio levantou a lâmpada, inundou-nos de luz, e disse:

Trazes vestidos de cor preta, que é antipática a Júpiter, cujo dia é hoje...

E fez com a mão um sinal que eu não vi com os olhos; mas a que obedeci, ficando imóvel, e como preso ao lugar que meus pés pisavam.

O armênio saiu do armazém para ir ao seu gabinete.

O Reis silencioso, eu estático, respirávamos apenas, dominados pelo prestígio do mágico que em breve tornou a aparecer, trazendo uma túnica de pano branco bordada de triângulos de prata.

Cumprindo as ordens do mágico, tirei a sobrecasaca, o jaleco e a gravata que eram de cor preta, e vesti a túnica.

Agora vamos, repetiu ele.

O Reis e eu seguimos em silêncio o mágico.

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