Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XV A Luneta Mágica · Capítulo 28 de 112
Obra Menu

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XV

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XV

E ainda com a proveitosa lição senti-me triste, profundamente triste.

Que dia infeliz! Começou de manhã pelos procuradores que vi e que me causaram repugnância e tédio, e acaba à tarde com a contemplação de duas jovens formosas, que a princípio me pareceram dois anjos, e logo depois reconheci que eram duas criaturas condenadas, dois corações infeccionados, duas mulheres formosas, porém más, dois medonhos abismos cobertos de lindas flores.

Esta luneta é implacável e cruel: além da visão das aparências ainda não me concedeu uma contemplação suave.

Já aborreço os homens, e hoje principiei a desconfiar das mulheres.

Quero, preciso ter uma consolação, uma impressão felicitadora, que compense as tristes desilusões por que tenho passado. Longe da minha luneta os homens e as mulheres! Prefiro olhar, apreciar algum ser impecável, obra de Deus, não contaminada pelas malícias e pelos vícios da humanidade.

Aí estão as duas pirâmides, e defronte o outeiro dos jacarés... são trabalhos do homem, desprezo-os; lá se mostram as flores... algumas são venenosas, e os perfumes das mais inocentes em certas condições podem matar; também não quero as flores; a água deste lago pode conter miasmas... não me convém...

Oh! eis ali um beija-flor!... A mais delicada e gentil criatura! Eu o estou vendo com suas penas de esmeraldas e rubins, de ouro e topázio, de púrpura e de fogo... eu o estou vendo com a sua mobilidade faceira, com os seus voos rápidos e graciosos, com o seu trêmulo adejar equilibrante no gozo puro do seu amor das flores...

Mas... que vejo ainda? Que vejo agora? Ah! essa avezinha tão mimosa e tão linda é um monstro que me inspira aversão por seus instintos ferozes e qualidades perniciosas.

Egoísta, falso, incapaz de afeição durável, o perverso abusa dos seus encantos, e beija, profana e atraiçoa todas as flores, licencioso e infame, poluindo seus nectáreos e ostentando após a mais bárbara indiferença, a mais ostentosa e ilimitada inconstância.

O beija-flor é como a serpente pela extensibilidade da língua, e esta ainda nele se duplica, estendendo dois filetes, que lhe servem como as garras às aves de rapina.

Finalmente assassino e destruidor, ele mata e devora em cada dia dezenas e dezenas de insetos inocentes, fracos e incapazes de defender-se, ousando sem continência nem respeito ir arrancá-los do mais doce asilo, do seio mimoso das flores!

Hoje criei ódio aos beija-flores, passarinhos devassos, desmoralizados, traiçoeiros e malvados.

Flores da terra! Acreditai na minha luneta mágica: tende medo dos beija-flores!

1/1
Menu

Fazer anotação