O Ensino das Asas Religião das Formigas · Capítulo 2 de 36
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O Ensino das Asas

A câmara dos alados ficava perto da superfície. O ar entrava seco pelas rachaduras, carregado de cheiro de folha fresca. Havia menos lama no chão e fibras claras dispostas em linhas que imitavam copas vistas de baixo.

Os machos aprendiam a abrir as asas sob comando, inclinar a cabeça diante da Rainha ausente e receber o toque das guardas sem recuar. Durante três turnos, eram tratados com a delicadeza reservada às coisas que custaram caro.

Nima chegou carregando uma tigela de pasta nutritiva. Madre Serrilha a escolhera para o serviço na manhã seguinte à leitura da folha.

— Seus olhos servem para mais do que peso — dissera a sacerdotisa. — Vamos descobrir se sua língua cabe no trabalho.

Nima não perguntou o que Serrilha sabia. Uma pergunta ofereceria medida.

Taro ocupava a primeira linha. Óleo cobria seu dorso, e pó dourado havia sido aplicado nas bordas das asas. Ao lado dele, um macho menor chamado Rul tremia desde a base das patas.

As instrutoras usavam varas finas de raiz. Chamavam-nas de linhas de correção.

Rul abriu a asa direita antes do sinal. A vara acertou a junta.

— Peça perdão à madeira — ordenou a instrutora.

— Perdão.

— À madeira.

Rul encostou a fronte na vara. Taro desviou os olhos. Nima distribuiu a comida, sentindo a atenção de Serrilha do alto de uma raiz exposta.

Durante a pausa, Taro se aproximou da linha que separava os alados das operárias.

— Você veio.

— Trouxe a tigela.

— Ainda conta.

Ele repetiu a fórmula de agradecimento dos futuros voadores: toda operária que alimenta asas participa do alto.

— Toda comida tem dono antes de virar louvor — respondeu Nima.

Taro sorriu.

— Você deixa tudo pesado.

— Alguém precisa carregar.

Ele comeu mais uma porção. Rul permaneceu ao fundo, tentando abrir a asa ferida sem chamar a instrutora.

— Você acredita que a folha escolheu sua família? — perguntou Nima.

Taro demorou a responder.

— Meu irmão foi escolhido quando minha mãe aceitou trabalhar para o depósito das sacerdotisas. Depois dele, mudamos de câmara.

— Então sabe.

— Sei uma parte.

— A parte suficiente.

— Suficiente para quê?

Nima olhou as fibras claras do chão, as guardas, a tigela quase vazia.

— Para recusar.

Taro limpou pasta da mandíbula.

— E devolver o lugar quente? A comida das minhas irmãs? Meu nome na raiz?

— Seu nome estará numa lasca.

— Onde estaria sem o canto?

Ela não respondeu.

Taro tocou a antena de Rul e o chamou para perto. O macho menor perguntou o que aconteceria se suas asas falhassem na abertura. Taro disse que o medo era sinal de corpo escolhido, pois as árvores não chamavam corpos vazios. Rul respirou melhor.

Nima ouviu a frase falsa produzir alívio diante dela.

Quando a pausa terminou, Madre Serrilha desceu da raiz.

— Taro — chamou.

Ele se ajoelhou.

— O que recebe uma família quando entrega um filho?

— Calor, alimento e memória.

— O que recebe o filho?

— Altura.

Serrilha tocou a cabeça dele.

— E se a altura trouxer dor?

— A dor prova que houve subida.

As instrutoras aprovaram. Nima viu Taro fechar os olhos durante a última resposta. Ele aprendera a converter qualquer destino em cumprimento.

Ao fim do treino, Marga recolheu as varas. Nima esperou até as outras guardas saírem.

— Você estava na leitura da folha.

— Eu estava trabalhando.

— Viu os cortes.

Marga colocou as varas num feixe.

— Vi uma carregadora interessada demais.

— Taro se apoia em você para chegar à entrada.

A guarda apertou o nó de fibra.

— Saia da câmara.

— Quando ele olhar para fora, você vai empurrá-lo?

Marga avançou até encostar a fronte na de Nima.

— Se repetir isso, ele pode morrer antes do canto. A mãe perde a comida. As irmãs voltam ao frio. Você terá uma verdade inteira e três corpos pagando por ela.

Nima recuou. Marga carregou as varas para o corredor sem olhar para trás.

Na sala das nervuras, Sile copiava registros de antigas subidas. Nima recebeu ordem de levar cascas rachadas ao depósito. Enquanto trabalhava, leu trechos de lascas expostas: machos recolhidos por pássaros, machos perdidos no vento, machos encontrados mortos perto de outra árvore. Todos haviam alcançado uma forma diferente de aceitação.

— Algum deles voltou? — perguntou.

Sile alinhou duas lascas.

— Um voltou com a asa quebrada.

— O que escreveram?

— Que recusou a altura.

— E fizeram o quê?

Sile raspou uma irregularidade da madeira.

— Corrigiram a recusa.

Nima deixou a casca que carregava.

— Você escreve tudo isso.

— Eu escrevo o que permanece.

— É a mesma coisa?

Sile enfim olhou para ela.

— Quando todas as outras versões apodrecem, é.

Nima retirou uma lasca mais antiga da prateleira. O nome de Amba aparecia no alto, seguido por uma lista de ferimentos causados à harmonia da colônia.

— Ela gritou durante uma subida.

Sile tomou a peça das patas dela.

— Esta lasca não pode sair da sala.

— Amba disse que os machos eram escolhidos por acordo.

— Amba tentou abrir três passagens durante um rito.

— Foi isso que aconteceu?

Sile guardou a lasca numa prateleira alta.

— Foi isso que permaneceu.

Na saída, Vespa-Morta aguardava com um cesto de cascas condenadas ao fungo ácido. Nima caminhou ao lado dela até o descarte.

— Você conheceu Amba?

— Carreguei uma das patas dela.

— Ela abriu as passagens?

— Gritou para abrirem. As guardas fecharam. A multidão pisou em duas operárias tentando fugir.

— E a verdade?

Vespa-Morta despejou as cascas na vala.

— Amba dizia a verdade e não sabia o que fazer com o pânico. Serrilha sabia.

A velha contou que, três ciclos depois, a câmara recebera o nome da rebelde. Larvas visitavam o lugar para aprender que palavras sem disciplina feriam a colônia. O grito permanecera; trocaram apenas sua direção.

Nima pensou em Taro consolando Rul, em Marga protegendo a comida de Luma e em Sile escolhendo o que sobreviveria na madeira. Nenhuma delas serviria a uma denúncia que terminasse no vazio.

— O que você ofereceria depois do grito? — perguntou Vespa-Morta.

— Ainda não sei.

— Então aprenda antes de abrir a boca.

O Canto da Subida começou na madrugada seguinte.

As operárias lavaram o corredor superior com água de fungo. Grãos claros marcaram duas trilhas até a abertura. As larvas ficaram nas câmaras mornas, ouvindo o hino por frestas no chão. As guardas fecharam as passagens laterais.

Nima foi colocada entre as carregadoras encarregadas de recolher restos do rito. Serrilha ocupou o centro. Sile e outras duas escribas aguardavam com madeira fresca. Marga segurava uma lança perto da boca superior.

Os alados surgiram cobertos de óleo. Cada asa trazia pequenos sinais: comida para a família, noites de calor, duração do nome. Taro caminhava na quinta posição. Rul vinha primeiro.

Luma atravessou a câmara e recebeu uma gota de seiva amarga. Serrilha anunciou as sete noites de raiz quente.

— Meu filho será lembrado? — perguntou Luma.

— Enquanto a colônia cumprir a parte dela.

A resposta colocou a comida futura dentro da obediência presente.

O canto subiu dos túneis baixos. Rul perdeu força nas patas quando a crosta de barro foi retirada da entrada. Um fio de luz cortou a câmara.

— Eu não consigo — disse ele.

Taro se aproximou até as asas dos dois se tocarem.

— Abra quando sentir o ar.

— E se eu cair?

— Alguém contará sua subida.

Rul foi conduzido à borda. Bateu as asas sem ritmo e alcançou o lado de fora. Uma sombra desceu entre as folhas. O bico levou seu corpo antes que a segunda batida terminasse.

Serrilha ergueu as antenas.

— Aceitação imediata.

As escribas começaram a raspar. O canto cobriu o choro da mãe de Rul. As guardas corrigiram a fileira. Ninguém precisou interromper o rito.

A mãe dele tentou atravessar a linha clara. Ogra, capitã das guardas, bloqueou a passagem com o corpo. Uma nutridora ofereceu pasta doce, ali mesmo, enquanto o nome de Rul era gravado. A mãe derrubou a tigela. Outra nutridora recolheu o alimento do chão e o colocou diante dos irmãos menores. A família começou a receber a compensação antes que o bico desaparecesse entre as folhas.

Nima acompanhou as bocas, não o alto. Cada formiga sabia o que fazer com aquela morte. A mãe receberia alimento. A escriba escolheria a fórmula. A sacerdotisa daria nome ao animal. A multidão cantaria até o medo caber dentro da melodia.

Quatro machos seguiram.

Um deles voltou ao túnel com a asa rasgada. Caiu perto das patas de Serrilha, vivo, tentando se arrastar para longe da abertura. A sacerdotisa encostou as antenas na cabeça dele e pediu que a colônia cantasse baixo. Duas guardas ergueram uma cortina de musgo. Quando a cortina desceu, o macho já não se movia.

— Recusado para servir de raiz — anunciou Serrilha.

Sile escreveu. A frase permitia que a falha também confirmasse a escolha.

Quando Taro foi chamado, Luma soltou um som curto. Serrilha apoiou uma pata sobre a cabeça dela.

Taro abriu as asas e olhou para Nima.

— Faça valer — disse.

Nima não soube se ele falava do nome, da comida ou da morte.

Taro saltou. As asas sustentaram o corpo por duas batidas. Ele alcançou uma raiz exposta e prendeu as patas na casca. Durante alguns instantes, permaneceu acima da entrada. O vento abriu suas asas por inteiro.

O canto perdeu força.

Taro olhou para fora, depois para a câmara. A expressão dele já não servia ao treino. Havia espanto, medo e uma vontade súbita de ficar onde estava.

Marga avançou.

A ponta da lança atingiu a raiz abaixo das patas de Taro. A casca cedeu. Ele tentou recuperar o apoio, bateu uma asa contra a madeira e caiu além do círculo de luz.

Luma gritou o nome do filho.

Serrilha levantou a voz.

— Desprendimento completo.

O canto voltou mais alto. Duas nutridoras seguraram Luma. Sile gravou a fórmula antes que o eco do grito terminasse.

Marga retornou à posição. Uma lasca de raiz permanecia presa à ponta da lança. Ela a retirou e deixou cair no chão.

Nima recolheu a peça junto dos restos de óleo e asa.

Depois do rito, as famílias receberam porções e foram conduzidas à raiz quente. A versão oficial desceu pelos corredores antes dos corpos das guardas: Rul fora aceito no primeiro chamado; Taro alcançara a forma mais alta de desprendimento; Luma sustentara o canto com sua coragem.

Nima encontrou a mãe de Taro cercada de alimento, incapaz de comer. As irmãs menores dormiam no calor. Uma nutridora repetia o nome do morto em intervalos regulares.

A verdade que Nima poderia oferecer retiraria dali a honra, o alimento e a única forma disponível de luto. A história de Serrilha distribuía consolo e recompensa com eficiência. Também escondia a ponta da lança.

Nima levou a lasca para o túnel de drenagem. Havia três riscos na madeira, produzidos pela queda e pela lâmina de Marga. Tocou cada um com a mandíbula.

Marga apareceu na entrada do túnel.

— Devolva.

— É descarte.

— Pertence à guarda.

— Você quer destruir?

Marga entrou até a luz de fungo alcançar metade de seu rosto.

— Quero dormir uma vez sem ouvir a casca quebrando.

Nima estendeu a peça. Quando Marga tentou pegá-la, fechou a pata.

— Ajude Luma a conservar o calor. Depois recebe.

— Está me comprando com a minha própria culpa.

— Estou descobrindo o preço dela.

Marga poderia ter tomado a lasca à força. Em vez disso, saiu.

Para vencer a história oficial, a verdade precisaria aprender a alimentar.

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