Os Desaparecimentos Anônimos
A guarda cresceu por dentro antes de crescer por número.
Sula passou a andar com mais largura. Veme corrigia a distância das outras sem receber ordem. A guarda silenciosa atraía respeito por não pedir nada. As duas últimas copiavam quem ficava menos exposta ao erro. A fibra esmagada, o grão rachado e a lasca incompleta continuavam pequenos, e a forma de cercá-los ocupava cada vez mais chão.
Pala começou a procurar o contrário.
Queria restos capazes de sair do mundo sem receber arco ou medida. Nem canto, nem irritação duradoura. Procurava um grão perdido que entrasse no fluxo de alimento e perdesse nome. Uma palavra incompleta que a umidade comesse antes de outra boca. Um pó confundido com o piso. Uma casca tão pisada que nenhuma pata pudesse ser culpada.
Mera aceitou a procura com regras pobres.
— Não escolher diante de ninguém.
— Não apontar.
— Não voltar para conferir.
— Não repetir lugar.
— Não comemorar.
A última regra foi a mais difícil. Não por alegria. Por alívio. Quando alguma coisa escapava, o corpo queria marcar a fuga. O corpo queria dizer: vi. Esse “vi” já puxava a mesa inteira pelo rabo.
O primeiro teste aconteceu num corredor de carga. Uma farpa de folha caiu de um teto roído, girou duas vezes e parou junto à trilha de ração. Pala viu. Mera viu. Nenhuma se moveu. Uma carregadora passou, esbarrou na farpa e a levou presa numa pata traseira. A farpa viajou até o depósito, misturou-se a migalhas, sumiu no cheiro forte de comida aberta.
Pala manteve a cabeça baixa.
Mera mordeu o próprio lábio.
Fina cruzou o corredor logo depois. Não viu. A ausência de registro teve uma leveza quase insuportável.
O segundo teste falhou por delicadeza excessiva.
Uma sílaba ficou escrita na borda de uma casca descartada. A umidade subia do chão. Em pouco tempo a marca se abriria em mancha. Pala passou uma vez e viu. Voltou depois, fingindo buscar caminho. Voltou uma terceira vez, mais devagar. Fina, que vinha atrás de uma fileira de placas lavadas, reparou no desvio.
— Há algo aí?
Pala seguiu andando. A pergunta ficou no ar. Fina olhou a casca. A marca ainda podia ser lida. Foi copiada por prudência. A sílaba ganhou placa e destino.
Mera esperou Pala perto do túnel baixo.
— Você voltou.
Pala encostou a cabeça na parede.
— Eu queria saber se tinha sumido.
— Saber foi o que impediu.
Pala aceitou sem defesa. A derrota tinha uma forma simples: uma volta a mais.
Enquanto isso, Serrilha transformava o deixado em canto. Não ordenava tocar nos objetos. Ordenava inclinar o corpo diante deles. A inclinação bastava para acender atenção. O corredor ficava mais lento. As guardas disputavam com as devotas o direito de permanecer perto. Tova cortava turnos. Sula reclamava. Veme reclamava da reclamação. A guarda silenciosa saía antes do fim sem explicar e, por isso, ganhava mais fundo aos olhos de quem a via sair.
Pala odiou a beleza daquele engano.
Quanto mais se dizia que algo deveria ficar em paz, menos paz o objeto recebia. A paz virava postura. A postura virava hábito. O hábito virava prova de respeito. O resto acabava preso no zelo.
Nima percebeu a procura de Pala antes de conhecer seu conteúdo. Chamou-a perto da mesa nova e mostrou uma placa de contagens. Havia atrasos, desvios, turnos interrompidos, cantos sem toque, objetos preservados e objetos perdidos por erro.
— Onde entram as coisas que somem sem testemunha?
Pala olhou a placa. A resposta certa seria dar um lugar. A resposta útil seria dar um nome. A resposta honesta tiraria a pergunta do alcance de Nima.
— Não entram.
Nima recebeu aquilo com calma.
— Então ficam fora até o dia em que alguém notar o fora.
Pala sentiu frio na boca. O lado de fora também podia virar reserva. Nada era seguro quando alguém pensava com paciência.
Mera a puxou depois pelo corredor de ventilação.
— Se ela governa até a ideia de perda, o que sobra?
Pala caminhou um tempo sem responder. A pergunta batia nas paredes e voltava menor.
— Talvez o que acontece sem nós.
Mera não gostou. Era uma resposta que retirava as duas da cena. Não havia heroísmo nela, nem perícia, nem plano. Apenas acontecimento.
Na tarde seguinte, a guarda precisou escolher uma ajudante. Tova queria renovar os turnos com gente comum. Sula queria alguém obediente. Veme queria alguém capaz de perceber uso escondido. A guarda silenciosa apontou para uma operária baixa que vinha do corredor de limpeza, com as mandíbulas gastas por raspar barro seco.
Seu nome era Nace.
Pala reconheceu a copista que tinha dito, dias antes, que queria varrer tudo. Agora ela carregava uma trouxa de fibras velhas e olhava para o chão, sem interesse pela escolha.
Tova explicou a função em poucas palavras. Nace ouviu. Sula acrescentou detalhes. Veme corrigiu Sula. Serrilha, presente por acaso calculado, falou do respeito ao deixado. Fina preparou a placa de entrada.
Nace esperou todas terminarem.
— Depois do turno posso voltar a varrer?
O corredor perdeu um ruído.
Sula fechou a boca. Veme olhou para Tova. Fina ergueu a cabeça antes de escrever. Serrilha estudou a frase com fome. Pala sentiu o perigo crescer em volta de algo puro demais. Alheio à disputa, Nace queria terminar a tarefa e voltar ao trabalho.
Tova respondeu depressa.
— Pode.
Fina não escreveu a pergunta. Escreveu apenas o nome de Nace e a duração do turno. Pala quase agradeceu. Mera tocou sua pata para impedir.
Nace entrou na guarda sem mudar o passo.
No primeiro turno, ficou perto de um farelo escuro. Não o encarou. Não afastou quem vinha. Quando uma carregadora quase pisou no farelo, Nace mexeu a pata por instinto, depois recolheu. A carregadora pisou. O farelo grudou, viajou, caiu mais adiante e foi varrido por outra pata qualquer.
Sula viu parte da cena e ficou irritada.
— Você deixou.
Nace olhou para o ponto vazio.
— Eu tinha que segurar?
Veme abriu a boca. Fechou. A pergunta de Nace não trazia desafio. Era falta de investimento. Essa falta deixava todas sem apoio.
Pala percebeu tarde que o farelo tinha sumido. Não sabia em que pata, em que curva, em que mistura. Não podia reconstruir. A perda estava limpa porque chegara antes do orgulho.
Tentou repetir a experiência e falhou. Escolheu uma lasca sem olhar diretamente. A escolha já marcou. Mera notou. Pala também. As duas abandonaram a lasca antes de qualquer testemunha. Mesmo abandonada, ela carregava a marca secreta da intenção. Já não era inteiramente livre.
Perto do fim do ciclo, Nace varreu o corredor de retorno sem pedir licença. Passou pela borda de um pó claro, raspou, juntou, empurrou para a umidade. Só depois viu que Sula a observava.
— Era resto guardado?
Sula procurou na própria memória. Não sabia. A dúvida foi maior que a autoridade.
— Talvez.
Nace olhou para a massa úmida que já perdia forma.
— Então acabou.
Nenhuma solenidade coube depois disso.
No alto da raiz, muito distante, um estalo seco atravessou a madeira. Foi pequeno, quase uma mordida errada de inseto. As formigas do corredor sentiram só um pó fino cair sobre as antenas. Sula mandou Nace parar de varrer até entenderem. Veme foi chamar Tova. Fina correu atrás de Nima.
Nace permaneceu com a mandíbula cheia de poeira, esperando ordem.
Pala olhou para a massa úmida no canto. Aquilo que talvez fosse guardado já não podia ser separado do barro. Restava um desaparecimento sem dono. Acima dele veio o primeiro estalo de uma madeira que ninguém ainda sabia temer.