A Constituição da Raiz Religião das Formigas · Capítulo 35 de 36
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A Constituição da Raiz

A colônia sobreviveu por contagem.

Não por canto, nem por pureza, nem por lembrança da rainha esmagada. Sobreviveu porque Nima marcou corredores com barro claro, contou bocas, separou larvas por tamanho e proibiu que duas fileiras disputassem a mesma abertura. Sobreviveu porque Orfa conhecia uma passagem de água limpa. Sobreviveu porque Nace raspou pó de três curvas sem saber que curvas entrariam na história. Sobreviveu porque Tova deixou algumas decisões sem nome até que os corpos atravessassem.

Ao fim da primeira noite, a raiz antiga estava partida em quatro lugares.

A câmara da rainha virou bloco morto. Nenhuma operária conseguiu abrir o teto caído. Serrilha cantou longe, porque cantar perto gastaria escavadoras. A voz dela vinha do corredor baixo, fina, obediente ao movimento. A árvore, antes centro de sentença, agora era madeira quebrada, obstáculo, ponte, risco e combustível.

Dala foi retirada da reserva com o corpo trêmulo. O peso das rainhas antigas ainda lhe era estranho. Trazia continuidade biológica num abdome jovem, além de fome e medo. Ao redor, a escolta se confundia. Serrilha quis aproximá-la da câmara bloqueada para receber a última umidade do corpo morto. Tova recusou antes que o rito ganhasse fila.

— Ela precisa comer.

— Precisa receber raiz.

— Raiz agora é passagem.

Orfa trouxe água numa pequena gota sustentada entre duas operárias. Dala bebeu. O gesto encerrou a discussão por necessidade.

Trima recusou a primeira placa que lhe ofereceram.

Fina achava natural registrar sua libertação. Marga achava natural registrar sua acusação. Nima achava útil colocá-la no conselho de crise, porque a cela aberta tinha transformado Trima em prova viva de falha e sobrevivência. Trima ouviu as três, depois empurrou a placa para longe.

— Não saí para sentar.

— Você viu o dentro da raiz — Nima disse.

— Vi uma prisão cair porque alguém de cima cortou madeira.

— Isso também é conhecimento.

— Então use sem me prender nele.

Marga escreveu a frase. Trima viu e arrancou metade da placa com a mandíbula. A outra metade ficou na pata de Marga. Ninguém tentou juntar.

As omissões começaram ali.

Nima montou uma mesa no chão irregular, sem borda fixa. Pôs três montes: alimento, água, passagem. Em cada monte, uma placa curta. Em volta, operárias sujas demais para postura solene. Tova ficava de pé, não sentada. Serrilha mantinha iniciadas em fileiras móveis. Orfa entrava e saía pelo túnel lateral. Pala e Mera carregavam larvas quando faltavam corpos. Nace limpava lama do acesso estreito, resmungando porque toda vez que terminava caía mais pó.

Marga subiu numa raiz baixa e leu o primeiro registro das perdas.

— Câmara da rainha: fechada com corpo dentro. Depósito maior: bloqueado. Corredor de alimento: abandonado durante a retirada das larvas. Câmara lateral três: sem resgate por decisão da mesa.

As últimas palavras endureceram o ar.

Nima não negou.

— Sim.

Serrilha parou o canto.

— Havia vivas?

Orfa respondeu:

— Havia.

Tova fechou os olhos por um batimento. Não por rito. Por peso.

Marga continuou.

— A retirada daquela câmara exigiria abrir a passagem com escavadoras e deslocar larvas para a zona seca. A decisão salvou setenta e duas larvas e perdeu número desconhecido de adultas.

Nima tocou a placa.

— Escreva desconhecido sem limpar.

Marga escreveu.

Serrilha quis transformar a perda em sacrifício. Nima recusou com cálculo. Tova recusou com cansaço. Trima, da parede, recusou com desprezo.

— Sacrifício é palavra de quem chegou depois.

Dala ouviu tudo sem entender plenamente. O corpo dela recebia alimento de hora marcada. Sua presença reorganizava as alimentadoras. Sua boca não ditava sentença. Serrilha tentava aproximar canto do alimento de Dala. Orfa interrompia com água. Nima interrompia com turno. Tova interrompia com prazo.

A constituição nasceu como lista de impedimentos.

Nenhum corredor vital ficaria sob uma única voz. Nenhum alimento seria retido para provar pureza. Nenhuma água seria transformada em oferta antes de passar por larvas. Nenhum canto poderia parar retirada, escavação ou cura. Nenhuma placa sobre mortos omitiria a decisão que os deixou morrer. Nenhum assento duraria sem revogação por falta de corpo, erro de rota ou mentira de contagem.

Fina perguntou onde escrever o nome da nova rainha.

Tova apontou para Dala.

— Escreva função reprodutiva.

Serrilha reagiu com dor visível.

— Isso diminui o corpo dela.

Dala levantou a cabeça. Pela primeira vez, falou alto o bastante para todas ouvirem.

— Meu corpo já é grande.

O silêncio que veio depois não pertencia a Serrilha. Pertencia ao corpo jovem que recusava excesso.

Nima organizou três conselhos: alimento, água e passagem. Cada um teria turnos curtos, registro público e substituição imediata se uma rota falhasse duas vezes sem aviso. Orfa aceitou água sem solenidade. Uma escavadora velha aceitou passagem porque conhecia barro pelo cheiro. Duas carregadoras assumiram alimento com o depósito ainda fechado. Serrilha manteve rito de luto e orientação de fileiras, sem direito de interditar corredor. Marga recebeu o direito de publicar omissões da mesa e da raiz. Fina manteve arquivo, agora obrigado a guardar rasura.

Pala esperou seu nome aparecer. Não apareceu.

Isso a aliviou e feriu. Mera percebeu.

— Melhor.

— Talvez.

— Você queria ficar fora.

— Ficar fora porque esqueceram não é a mesma coisa.

Mera olhou para Nace, que raspava a lama com uma casca torta.

— Pergunte a ela se faz diferença.

Pala não perguntou.

Nima recebeu a última oferta de poder no ciclo seguinte. Algumas operárias queriam chamá-la de rainha da raiz partida. O cansaço procurava forma longe dos ritos de Serrilha. Quem contava, decidia. Quem decidia, salvava. Quem salvava, merecia corpo maior no nome.

Nima ouviu a proposta diante dos três montes.

— Não.

Sula, agora menos larga depois do colapso, perguntou:

— Então quem manda?

Nima tocou alimento, água e passagem, nessa ordem.

— O que precisa continuar.

— Isso não responde.

— Responde menos do que um trono. Por isso serve mais.

Tova observou sem interromper. Sabia que a recusa de Nima não era pureza. Nima recusava o título e mantinha os instrumentos. Registro, rota, contagem, prazo, publicação de falha. Era um poder mais leve de carregar e mais difícil de derrubar. Ainda assim, depois da madeira caída, talvez todo poder precisasse mostrar onde pisava.

Marga pediu que essa suspeita entrasse na placa.

Nima aceitou.

— Escreva.

Marga escreveu: Nima recusou o título de rainha e conservou meios de decisão. A frase ficou feia. Por isso passou.

Trima aproximou-se da mesa sem sentar.

— A cela aberta continua aberta?

Tova respondeu:

— Sim.

— Para mim ou para qualquer uma?

Nima olhou para o corredor rachado.

— Para qualquer uma que não ameace larvas, água ou passagem.

Trima riu uma vez.

— Ainda é uma coleira.

— É.

Essa admissão circulou sem canto. Serrilha tentou guardar a palavra dentro de uma prece sobre limites necessários. Dala pediu comida no meio da primeira frase. A prece foi interrompida por ração. A colônia aprendeu um novo som de governo: mandíbulas mastigando enquanto uma ideia esperava.

No terceiro ciclo, a constituição foi fixada numa casca sem brilho, perto da passagem de água. Não no altar, não sobre o corpo da rainha morta, não no antigo lugar da mesa. Quem buscava água lia mesmo sem querer. Quem carregava larva esbarrava na borda. Quem limpava o chão precisava mover poeira ao redor.

Nace leu nada. Apenas levantou a casca para varrer embaixo e colocou de volta um pouco torta.

Fina correu para endireitar. Tova impediu com uma pata.

— Deixe.

A constituição ficou torta.

No canto inferior, Marga acrescentou a primeira omissão publicada: Câmara lateral três, deixada para trás por decisão de sobrevivência. O registro não salvou as mortas. Também não permitiu que virassem beleza inteira.

À noite, Nima distribuiu alimento recuperado do depósito menor. A escolha do capítulo anterior ainda cobrava preço: as adultas estavam fracas, o depósito maior apodrecia atrás de barro, e as larvas salvas exigiam mais boca do que havia. A nova ordem começou sem festa, mastigando pouco.

Pala passou pela casca torta. Leu as regras. Viu o espaço onde a poeira já juntava no canto inferior. Pensou que qualquer regime que durasse tempo suficiente aprenderia a usar até sua própria sujeira. Depois viu Nace se aproximar com a vassoura curta e afastou-se.

A constituição da raiz nasceu com uma inclinação no chão e uma omissão escrita sem consolo. Era pouco. Também era o bastante para impedir, por ora, que uma voz só chamasse a perda de destino.

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