A Escola do Sangue
As larvas aprenderam a palavra antes da história.
Repetiam sangue nas câmaras mornas, mordiam as próprias patas e riam do som. As nutridoras corrigiam para gratidão. No turno seguinte, as pequenas misturavam tudo: sangue grato, raiz vermelha, boca da terra.
Nima observou a primeira aula escondida atrás de uma fresta. Duas pancadas reuniam as larvas. Três fechavam suas bocas. Uma resposta correta recebia pasta doce.
O mundo entrava nelas por ritmo e alimento.
Sile trouxe uma lasca oficial destinada às instrutoras. Dizia que o sangue da terra recordava o serviço devido às Altas. No verso, ela gravara um corte extra e três palavras: sangue lembra conta.
— Curto demais — disse Nima.
— Bocas pequenas não guardam discurso.
Rena propôs um jogo. Três migalhas seriam colocadas em linha. A larva tocaria o ventre, a raiz desenhada e a boca. Depois diria fome, conta, nome e receberia a última porção.
— Você transformou a rede numa brincadeira — disse Marga.
— Serrilha transforma obediência em aula.
— Isso não melhora a brincadeira.
Nima autorizou.
Pala era a nutridora responsável pelo grupo mais novo. Tinha uma cicatriz branca no maxilar e conhecia cada larva pelo modo de pedir água. Aceitou aplicar o jogo porque as porções extras alimentariam as pequenas que ainda não digeriam folha.
A cicatriz vinha de uma estação de fome. Pala quebrara uma semente endurecida com a própria boca para alimentar três larvas, e a casca abrira seu maxilar. Serrilha usava a história nas aulas de serviço, omitindo que o depósito mantivera sementes macias reservadas às guardas.
Pala nunca corrigia a versão em público. Depois da lição, contava às pequenas que alimento guardado também apodrece.
— Isso é ensinar dívida? — perguntou Nima.
— É ensinar cheiro.
— Cheiro não entra em lasca.
— Por isso as pequenas lembram.
Ina foi a primeira a acertar a sequência.
— Fome.
Tocou o ventre.
— Conta.
Tocou a raiz partida.
— Nome.
Encostou a pata na boca.
Pala entregou a migalha. As outras formaram fila.
Em dois turnos, o gesto virou disputa. Uma larva empurrou outra e afirmou que a conta pertencia a quem tocasse primeiro. Outra escondeu migalhas e cobrou repetição das menores.
Pala procurou Nima.
— Elas estão tirando comida umas das outras.
— Separe porções iguais.
— Nunca há porções iguais.
— Então ensine a dividir.
— Você sabe que não foi isso que aprenderam.
Nima olhou as larvas atrás dela. Ina organizava três pequenas numa fila e decidia quem falaria primeiro.
— Suspenda por um turno.
— E depois?
— Depois corrigimos.
Pala retirou as migalhas. As larvas protestaram. Uma chamou a nutridora de boca fechada. Outra desenhou sal sobre sua cicatriz, palavra ouvida nas cozinhas.
Naquela noite, Pala tentou outro jogo. Distribuiu uma migalha para cada três larvas e esperou. Ina partiu a sua em pedaços. Uma pequena chamada Aru escondeu a porção inteira sob o corpo. Duas brigaram até Pala afastá-las.
— O que aprenderam? — perguntou a nutridora.
Ina respondeu:
— Que pouca comida cria guarda.
Aru retirou a migalha escondida.
— E segredo.
Pala contou a Nima.
— Elas entenderam mais do que ensinamos.
— Então continue.
— Você quer transformar respostas em lição.
— Quero que não esqueçam.
— Criança também merece esquecer certas coisas.
Nima pensou em Taro, cujo nome era repetido por adultas interessadas em lembrar.
— A colônia não vai deixá-las esquecer.
— Isso não dá a você o direito de chegar primeiro.
Madre Serrilha anunciou o Círculo da Primeira Gratidão antes que o jogo recomeçasse. Todas as larvas capazes de andar seriam levadas à Boca da Raiz. Receberiam pasta clara, aprenderiam o nome correto do sangue e lavariam a boca com água salgada após cada resposta.
Ogra ficou junto à entrada.
Serrilha perguntou:
— O que pede a terra quando sangra?
Algumas responderam gratidão. Ina disse história.
— Quem ensinou essa palavra?
Ina apontou para Vespa-Morta, ausente da câmara.
As operárias riram com nervosismo. Serrilha mandou buscar a velha.
Vespa-Morta chegou carregando uma larva morta para o descarte.
— Que histórias coloca nessas bocas? — perguntou a sacerdotisa.
— Recolho as que caem das grandes.
Serrilha declarou que toda história caída passaria pela Boca da Raiz antes de chegar às pequenas. Uma frase de recusa ganhava fiscalização em poucas respirações.
Ogra apresentou a água salgada. Cada larva repetiria: sangue bom volta para as Altas.
Ina disse:
— Sangue lembra conta.
A capitã segurou sua cabeça e despejou água até a pequena engasgar.
Marga avançou. Nima prendeu sua pata.
— Solte — sussurrou a guarda.
— Você entrega todas.
Ina tossia no chão. As larvas seguintes repetiram a frase oficial.
Pala assistiu até o fim. Depois procurou Ogra e entregou os nomes das nutridoras que haviam distribuído migalhas. Disse que desejava proteger as pequenas de punição maior.
Marga trouxe a notícia.
— Ela entregou Rena e outras duas.
— Sile?
— Não.
— Luma?
— Não.
Nima encontrou Pala na câmara de água.
— Você deu nomes.
— Dei os que Ogra já suspeitava.
— Não cabia a você escolher.
— Cabia a mim impedir que abrissem a boca de Ina outra vez.
Nima colocou uma tigela de sal diante dela.
— Durante três turnos, nenhuma mãe da rede deixa larva com você. Nenhuma porção clandestina passa por sua câmara.
Pala olhou o sal.
— Isso é julgamento?
— É proteção.
— Serrilha usa essa palavra.
— Lave a boca.
Pala obedeceu. A água salgada entrou na cicatriz e a fez tremer. Nima saiu antes que o gesto terminasse.
No mesmo turno, o nome Boca de Sal começou a circular. Dara contou que Pala vendera nutridoras e recebera purificação clandestina. Rena recusou comida à câmara dela. Mães retiraram as larvas.
As consequências alcançaram as pequenas antes de Pala. Aru perdeu a pasta extra. Ina foi transferida para uma câmara onde ninguém conhecia sua tosse. Uma larva que dependia da comida macia voltou a receber folha dura e passou a noite vomitando fibras.
Marga trouxe o corpo fraco até Nima.
— Esta é sua consequência.
Nima chamou Rena e mandou repor as porções.
— Pala continua suspensa.
— Então as larvas pagam para você manter a sentença?
— Rena vai alimentá-las.
— Escondido. Até Ogra encontrar.
Marga colocou a pequena no chão.
— Você construiu uma punição que precisa da própria rede para fingir que não pune inocentes.
Nima carregou a larva até a câmara de Sile. Durante o caminho, o corpo leve mal pesou em suas patas.
Vespa-Morta encontrou Nima no corredor.
— Agora você tem água amarga.
— Ela entregou nomes.
— E você entregou um corpo ao rumor.
— Precisava haver consequência.
— Serrilha diz isso depois de cada ferida.
Madre Serrilha chamou Pala à Boca da Raiz no dia seguinte.
A nutridora entrou esperando outra punição. A sacerdotisa colocou-a diante da parede vermelha e anunciou que bocas fiéis suportam sal para conservar a colônia. Pala receberia proteção oficial. As larvas tocariam sua cicatriz e repetiriam: sal guarda.
Nima assistiu entre as carregadoras. Serrilha transformava o castigo clandestino em santidade pública.
Ina foi conduzida até Pala.
— Toque a boca guardada — ordenou Ogra.
A larva manteve as patas junto ao corpo.
— Toque.
Ina olhou para Pala. A nutridora chorava sem mover a boca.
Uma larva atrás de Ina tocou o próprio ventre. Outra encostou a pata na boca. Os gestos do jogo retornavam fora da sequência.
Ogra ergueu a tigela.
Pala a derrubou.
A água salgada se espalhou diante da raiz.
— Chega — disse.
Serrilha observou a tigela vazia.
— Você recusa a guarda que recebeu?
— Recuso que abram outra boca em meu nome.
As guardas cercaram Pala. Nima esperou que a nutridora procurasse ajuda entre as mães ou a rede. Pala não olhou para nenhuma adulta. Ajoelhou-se diante de Ina e limpou com a pata o sal preso ao maxilar da pequena.
Serrilha encerrou a cerimônia e mandou recolher as larvas. Pala perdeu a câmara morna. Ogra levou-a para o corredor das purificadas, onde antigas testemunhas oficiais dormiam sob vigilância.
Naquela noite, as crianças repetiram o gesto de Pala. Derrubavam gotas no chão e limpavam a boca umas das outras. Algumas chamavam aquilo de sal guarda. Outras diziam Pala abre. Ina não dizia nada.
Nima desenhou o mapa outra vez. Pala cabia em três lugares: traidora, punida e santa. Nenhum deles explicava a formiga que derrubara a tigela.
Usar as larvas garantira duração ao sinal. Também criara gestos que nenhuma fundadora controlava. As pequenas recebiam doutrina, castigo e fome; devolviam criaturas sem gratidão.
Nima deixou o círculo de Pala sem nome.