A Raiz Partida
Na manhã seguinte ao Canto da Subida, a colônia cheirava a óleo velho e terra revolvida.
As famílias dos alados permaneciam perto da raiz quente. Recebiam pasta doce, água limpa e frases de consolo a cada troca de turno. Luma ocupava o centro da câmara, cercada pelos objetos de Taro: uma gota de seiva seca, a lasca com o nome dele e um fragmento de asa trazido pelas guardas.
Nima esperou a saída das nutridoras.
— Ele falou comigo antes de subir — disse.
Luma levantou a cabeça.
— O que disse?
Nima havia repetido muitas respostas durante a noite. Escolheu a única frase verdadeira.
— Pediu que fizéssemos valer.
— Valer o quê?
— Ele não explicou.
Luma tocou a lasca do filho.
— Madre Serrilha disse que era a coragem da família.
— Serrilha fala antes que as perguntas terminem.
A mãe recolheu o fragmento de asa para junto do corpo.
— Você veio tirar o pouco que me deram?
— Vim dizer que Taro segurou a raiz. Ele tentou ficar.
O corpo de Luma enrijeceu.
— Você viu?
— Vi.
— Então por que cantou?
Nima recebeu a pergunta sem resposta pronta. Também movera a mandíbula durante o rito. Sua voz não saíra, embora o corpo estivesse dentro da fileira.
— Porque as guardas fechavam a passagem.
— Marga estava lá.
— Estava.
Luma compreendeu antes que Nima completasse. O fragmento de asa caiu de suas patas.
— Saia.
— A marca dele ficou na raiz.
— Saia.
Nima deixou a lasca retirada da lança no chão e se afastou. Precisava de Luma ferida o suficiente para procurar sentido, ainda inteira o bastante para escolher a própria frase. Ao cruzar a entrada, sentiu vergonha da medida.
Vespa-Morta esperava junto à pilha de palha usada. Separava os fios limpos daqueles manchados por fungo.
— Você contou à mãe.
— Luma tinha direito.
— Direitos chegam depressa à boca de quem pretende cobrar.
Nima pegou um feixe de palha e começou a separar ao lado dela.
— Taro pediu que fizéssemos valer.
— E você decidiu o valor.
— Serrilha já decidiu.
— Isso não absolve sua escolha.
Nima partiu um fio contaminado.
— Você prefere que o nome dele fique na lasca oficial?
— Prefiro que saiba quando está usando um morto.
Vespa-Morta recolheu a palha limpa e saiu. Nima permaneceu diante dos fios rejeitados, com a frase presa no corpo.
Marga a esperava no corredor das guardas.
— O que você contou?
— Que ele tentou ficar.
A guarda agarrou Nima pelo dorso e a empurrou contra a parede.
— Luma tem outras filhas.
— E você tem a lança.
Marga aumentou a pressão.
— Eu recebia a ordem ou perdia a entrada. Outra guarda faria o mesmo.
— Você quer que eu transforme isso em inocência?
— Quero que deixe a família comer.
— Quero a raiz da ponta da sua lança.
Marga soltou Nima.
— Para quê?
— Para que Taro deixe outra coisa além da versão de Serrilha.
A guarda olhou o corredor vazio.
— Se usar meu nome, você cai primeiro.
— Seu nome ficaria inteiro no arquivo. A lança também.
Marga entendeu a ameaça. Nima detestou a rapidez com que a formulara.
Na sala das nervuras, Sile copiava o registro do canto. A lasca oficial dizia que Taro recebera desprendimento completo e Luma sustentara a vontade das Altas. Nima colocou ao lado dela a peça marcada.
— A raiz que ele segurou.
Sile examinou os três riscos.
— Isto não prova a lança.
— Prova que houve contato.
— Contato já aparece no registro.
Nima raspou o corte do meio até incliná-lo. Os três riscos formaram uma base quebrada.
— Agora aparece outra coisa.
Sile acompanhou a figura.
— Qual o nome?
— Raiz partida.
— O que significa?
— Que toda asa entregue prende a raiz em dívida.
Sile repetiu a sentença sem voz, medindo o espaço necessário numa lasca. Em seguida, abriu uma fenda sob a mesa e retirou madeira clara.
— Antes ou depois do nome de Taro?
— Abaixo.
— Perto da porção entregue à família?
Nima percebeu que Sile entendia o mecanismo. Se a dívida ficasse junto da comida, cada benefício registraria também seu custo.
— Exatamente ali.
Sile iniciou a cópia.
— Serrilha confere estas prateleiras.
— Faça duas.
— Três.
Sile manteve os olhos na madeira.
— Cópia é vício de quem deseja sobreviver.
Marga deixou a marca na borda superior até a troca do turno. Operárias que subiam para o reparo viram os três cortes no barro. Algumas tocaram a fronte no chão, julgando tratar-se de sinal autorizado. Outras levaram a descrição para os corredores.
Ao anoitecer, Rena abriu o depósito menor em troca de metade de uma porção. Nima levou o restante à câmara de Luma. Quatro mães apareceram. Duas tinham perdido alados em estações anteriores. Uma entregaria o filho no ciclo seguinte. A quarta veio pela comida.
Luma não mostrou a lasca. Manteve-a sob o corpo.
— Meu filho segurou a raiz — disse. — A raiz não o segurou.
Uma das mães perguntou quem lhe contara.
— A marca.
Nima permaneceu perto da parede. Luma havia escolhido uma frase que nenhuma delas ensaiara. A dor começava a criar linguagem própria.
Cada visitante recebeu alimento. A palavra dívida foi pronunciada pela mãe cujo filho ainda vivia.
— Se entregamos asas, o que as raízes nos devem?
Rena respondeu antes de Nima:
— Mais do que sete noites.
A mãe mais velha contou que seu filho, Aro, desaparecera no alto oito estações antes. Durante três luas, o nome dele fora repetido na raiz de escuta. Na quarta, uma família mais influente entregou dois machos e ocupou o lugar. Desde então, ela só ouvia o nome de Aro quando o dizia sozinha.
Luma colocou a lasca de Taro ao lado do fragmento de asa.
— Eles vão parar de dizer o nome dele.
— Então diga você — respondeu a mãe.
— Sozinha?
A visitante tocou a raiz partida.
— Comece antes de ficar sozinha.
Nima observou as duas. A reunião adquiria uma necessidade que não nascera de seu plano. As mães queriam duração, alimento e testemunhas. A raiz partida podia juntar essas três coisas. Também podia aprisioná-las em outra fórmula.
A reunião terminou quando Marga bateu duas vezes na parede, aviso de patrulha. As mães saíram por passagens diferentes.
Madre Serrilha convocou a colônia na quarta pancada do dia seguinte.
A Boca da Raiz era uma câmara construída ao redor de uma raiz bifurcada. A fenda central devolvia a voz da sacerdotisa em ecos baixos. Guardas ocupavam todas as saídas. Sile não estava entre as escribas.
Serrilha ergueu uma lasca envelhecida com fungo.
— A marca partida já visitou esta colônia em estações de desvio.
Nima reconheceu o trabalho. A madeira fora tratada na noite anterior. O passado acabara de ser fabricado.
Segundo Serrilha, formigas impacientes confundiram falta com direito e direito com cobrança. A raiz partida registrava a dívida das famílias com as Árvores Altas. Quem recebesse alimento por um filho entregue deveria retribuir com serviço e silêncio.
Luma foi chamada.
Duas nutridoras ficaram atrás dela. O lugar quente de suas filhas dependia da resposta.
— Você aceita a dívida aberta por Taro? — perguntou Serrilha.
Luma olhou para Nima entre as carregadoras.
— Aceito a dívida que ele deixou para as raízes responderem.
Uma antena de Serrilha se moveu.
— A família de Taro aceita pagar em serviço até que as raízes concedam resposta — declarou a sacerdotisa.
As escribas gravaram a segunda versão.
— Foi isso que ela disse? — perguntou uma voz no fundo.
As guardas ergueram as lanças. Ninguém identificou a formiga que falara.
Serrilha não repetiu a pergunta. Mandou trazer Rena, que confessou o desvio de comida. As mães receberiam trabalho adicional no túnel norte. Rena perderia o acesso ao depósito por três dias.
Por fim, a sacerdotisa ordenou que a raiz partida fosse pintada na parede da câmara com seu sentido oficial. Apropriava-se do sinal em vez de proibi-lo. Nima sentiu raiva e admiração. Serrilha oferecia joelho, parede e fila à marca que pretendia dominar.
Antes de dispensar as operárias, Serrilha chamou Nima para junto da raiz.
— Você reconhece este sinal?
— Agora todas reconhecem.
— Perguntei sobre antes.
Nima examinou os três cortes pintados. O traço central estava invertido em relação à lasca.
— Vi algo semelhante na entrada.
— Algo semelhante.
— A limpeza apagou depressa.
Serrilha desceu um degrau.
— Sinais sem mãe atraem formigas desejosas de adoção.
— E mães adotivas mudam o nome dos filhos.
Ogra aproximou a lança do flanco de Nima. Serrilha fez a guarda recuar com um movimento de antena.
— Você tem precisão, Nima. A precisão pode receber função.
— Sile recebeu uma?
— Sile confundiu cópia com autoridade.
— Onde ela está?
— Onde uma escriba aprende o peso do que decide guardar.
Serrilha tocou o corte central da pintura.
— Volte ao carregamento. Ainda há tempo para seus olhos servirem ao corpo certo.
Nima se afastou sabendo que fora reconhecida como ameaça e como candidata. A oferta de função era uma porta estreita: poderia entrar, aprender e ser digerida; poderia recusar e entregar a Serrilha um inimigo fácil de nomear.
Quando a assembleia terminou, Marga permaneceu junto à terceira saída.
— Sile está no poço seco — murmurou quando Nima passou.
No poço, uma fibra prendia o tórax da escriba. Tinta escura cobria seu rosto, e uma das patas estava ferida. Nenhuma guarda vigiava a entrada.
— Onde estão as cópias? — perguntou Nima.
— Serrilha levou duas.
— Você fez três.
Sile tocou uma rachadura da parede. Dentro dela havia pó de madeira coberto por sinais incompletos: asa entregue, raiz em dívida, mãe responde.
Nima rompeu a fibra.
— Saia pela câmara de descarte na quinta pancada.
— Qual interpretação venceu?
— A que ganhou parede.
Sile apoiou a pata ferida.
— Então ela venceu.
— Ganhou parede. Nós ganhamos prisão.
— Isso deveria me consolar?
— Vai fazer as outras perguntarem o que você escreveu.
Sile encarou Nima.
— Você sabia que isso aconteceria?
Nima não respondeu. A escriba compreendeu o bastante para se afastar dela antes de subir.
Naquela noite, a marca original foi apagada da borda superior. Marga cumpriu a ordem e alisou o barro até nenhum corte permanecer.
Ao mesmo tempo, o desenho oficial recebia visitantes na Boca da Raiz. Mães tocavam os três traços e pronunciavam a frase de Luma em voz baixa. Guardas perguntavam por que Sile fora presa. Uma operária afirmou ter visto quatro cortes. Outra jurou que a terra sangrara durante a limpeza. Cada versão aumentava o sinal retirado do chão.
Rena recuperou o acesso ao depósito antes do prazo, depois de entregar à sacerdotisa os nomes de duas mães mortas. As vivas entenderam o gesto e continuaram procurando comida com ela. Marga guardou a lasca de Taro sob a couraça. Sile escondeu o pó das cópias numa câmara de fungos. Luma começou a repetir o nome do filho na troca de cada turno, sempre diante de outra formiga.
Nima voltou à entrada antes da primeira pancada. Encontrou apenas barro liso. Ajoelhou e passou a antena pelo lugar onde Taro havia se segurado.
Duas operárias pararam atrás dela.
— Era aqui? — perguntou uma.
Nima se levantou.
— Aqui o quê?
As duas olharam a terra vazia e não souberam responder. Desceram levando a ausência consigo.
Quando a primeira pancada percorreu a colônia, já havia raízes partidas desenhadas em cinco câmaras. Nenhuma era igual à original.