A Raiz Partida Religião das Formigas · Capítulo 3 de 36
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A Raiz Partida

Na manhã seguinte ao Canto da Subida, a colônia cheirava a óleo velho e terra revolvida.

As famílias dos alados permaneciam perto da raiz quente. Recebiam pasta doce, água limpa e frases de consolo a cada troca de turno. Luma ocupava o centro da câmara, cercada pelos objetos de Taro: uma gota de seiva seca, a lasca com o nome dele e um fragmento de asa trazido pelas guardas.

Nima esperou a saída das nutridoras.

— Ele falou comigo antes de subir — disse.

Luma levantou a cabeça.

— O que disse?

Nima havia repetido muitas respostas durante a noite. Escolheu a única frase verdadeira.

— Pediu que fizéssemos valer.

— Valer o quê?

— Ele não explicou.

Luma tocou a lasca do filho.

— Madre Serrilha disse que era a coragem da família.

— Serrilha fala antes que as perguntas terminem.

A mãe recolheu o fragmento de asa para junto do corpo.

— Você veio tirar o pouco que me deram?

— Vim dizer que Taro segurou a raiz. Ele tentou ficar.

O corpo de Luma enrijeceu.

— Você viu?

— Vi.

— Então por que cantou?

Nima recebeu a pergunta sem resposta pronta. Também movera a mandíbula durante o rito. Sua voz não saíra, embora o corpo estivesse dentro da fileira.

— Porque as guardas fechavam a passagem.

— Marga estava lá.

— Estava.

Luma compreendeu antes que Nima completasse. O fragmento de asa caiu de suas patas.

— Saia.

— A marca dele ficou na raiz.

— Saia.

Nima deixou a lasca retirada da lança no chão e se afastou. Precisava de Luma ferida o suficiente para procurar sentido, ainda inteira o bastante para escolher a própria frase. Ao cruzar a entrada, sentiu vergonha da medida.

Vespa-Morta esperava junto à pilha de palha usada. Separava os fios limpos daqueles manchados por fungo.

— Você contou à mãe.

— Luma tinha direito.

— Direitos chegam depressa à boca de quem pretende cobrar.

Nima pegou um feixe de palha e começou a separar ao lado dela.

— Taro pediu que fizéssemos valer.

— E você decidiu o valor.

— Serrilha já decidiu.

— Isso não absolve sua escolha.

Nima partiu um fio contaminado.

— Você prefere que o nome dele fique na lasca oficial?

— Prefiro que saiba quando está usando um morto.

Vespa-Morta recolheu a palha limpa e saiu. Nima permaneceu diante dos fios rejeitados, com a frase presa no corpo.

Marga a esperava no corredor das guardas.

— O que você contou?

— Que ele tentou ficar.

A guarda agarrou Nima pelo dorso e a empurrou contra a parede.

— Luma tem outras filhas.

— E você tem a lança.

Marga aumentou a pressão.

— Eu recebia a ordem ou perdia a entrada. Outra guarda faria o mesmo.

— Você quer que eu transforme isso em inocência?

— Quero que deixe a família comer.

— Quero a raiz da ponta da sua lança.

Marga soltou Nima.

— Para quê?

— Para que Taro deixe outra coisa além da versão de Serrilha.

A guarda olhou o corredor vazio.

— Se usar meu nome, você cai primeiro.

— Seu nome ficaria inteiro no arquivo. A lança também.

Marga entendeu a ameaça. Nima detestou a rapidez com que a formulara.

Na sala das nervuras, Sile copiava o registro do canto. A lasca oficial dizia que Taro recebera desprendimento completo e Luma sustentara a vontade das Altas. Nima colocou ao lado dela a peça marcada.

— A raiz que ele segurou.

Sile examinou os três riscos.

— Isto não prova a lança.

— Prova que houve contato.

— Contato já aparece no registro.

Nima raspou o corte do meio até incliná-lo. Os três riscos formaram uma base quebrada.

— Agora aparece outra coisa.

Sile acompanhou a figura.

— Qual o nome?

— Raiz partida.

— O que significa?

— Que toda asa entregue prende a raiz em dívida.

Sile repetiu a sentença sem voz, medindo o espaço necessário numa lasca. Em seguida, abriu uma fenda sob a mesa e retirou madeira clara.

— Antes ou depois do nome de Taro?

— Abaixo.

— Perto da porção entregue à família?

Nima percebeu que Sile entendia o mecanismo. Se a dívida ficasse junto da comida, cada benefício registraria também seu custo.

— Exatamente ali.

Sile iniciou a cópia.

— Serrilha confere estas prateleiras.

— Faça duas.

— Três.

Sile manteve os olhos na madeira.

— Cópia é vício de quem deseja sobreviver.

Marga deixou a marca na borda superior até a troca do turno. Operárias que subiam para o reparo viram os três cortes no barro. Algumas tocaram a fronte no chão, julgando tratar-se de sinal autorizado. Outras levaram a descrição para os corredores.

Ao anoitecer, Rena abriu o depósito menor em troca de metade de uma porção. Nima levou o restante à câmara de Luma. Quatro mães apareceram. Duas tinham perdido alados em estações anteriores. Uma entregaria o filho no ciclo seguinte. A quarta veio pela comida.

Luma não mostrou a lasca. Manteve-a sob o corpo.

— Meu filho segurou a raiz — disse. — A raiz não o segurou.

Uma das mães perguntou quem lhe contara.

— A marca.

Nima permaneceu perto da parede. Luma havia escolhido uma frase que nenhuma delas ensaiara. A dor começava a criar linguagem própria.

Cada visitante recebeu alimento. A palavra dívida foi pronunciada pela mãe cujo filho ainda vivia.

— Se entregamos asas, o que as raízes nos devem?

Rena respondeu antes de Nima:

— Mais do que sete noites.

A mãe mais velha contou que seu filho, Aro, desaparecera no alto oito estações antes. Durante três luas, o nome dele fora repetido na raiz de escuta. Na quarta, uma família mais influente entregou dois machos e ocupou o lugar. Desde então, ela só ouvia o nome de Aro quando o dizia sozinha.

Luma colocou a lasca de Taro ao lado do fragmento de asa.

— Eles vão parar de dizer o nome dele.

— Então diga você — respondeu a mãe.

— Sozinha?

A visitante tocou a raiz partida.

— Comece antes de ficar sozinha.

Nima observou as duas. A reunião adquiria uma necessidade que não nascera de seu plano. As mães queriam duração, alimento e testemunhas. A raiz partida podia juntar essas três coisas. Também podia aprisioná-las em outra fórmula.

A reunião terminou quando Marga bateu duas vezes na parede, aviso de patrulha. As mães saíram por passagens diferentes.

Madre Serrilha convocou a colônia na quarta pancada do dia seguinte.

A Boca da Raiz era uma câmara construída ao redor de uma raiz bifurcada. A fenda central devolvia a voz da sacerdotisa em ecos baixos. Guardas ocupavam todas as saídas. Sile não estava entre as escribas.

Serrilha ergueu uma lasca envelhecida com fungo.

— A marca partida já visitou esta colônia em estações de desvio.

Nima reconheceu o trabalho. A madeira fora tratada na noite anterior. O passado acabara de ser fabricado.

Segundo Serrilha, formigas impacientes confundiram falta com direito e direito com cobrança. A raiz partida registrava a dívida das famílias com as Árvores Altas. Quem recebesse alimento por um filho entregue deveria retribuir com serviço e silêncio.

Luma foi chamada.

Duas nutridoras ficaram atrás dela. O lugar quente de suas filhas dependia da resposta.

— Você aceita a dívida aberta por Taro? — perguntou Serrilha.

Luma olhou para Nima entre as carregadoras.

— Aceito a dívida que ele deixou para as raízes responderem.

Uma antena de Serrilha se moveu.

— A família de Taro aceita pagar em serviço até que as raízes concedam resposta — declarou a sacerdotisa.

As escribas gravaram a segunda versão.

— Foi isso que ela disse? — perguntou uma voz no fundo.

As guardas ergueram as lanças. Ninguém identificou a formiga que falara.

Serrilha não repetiu a pergunta. Mandou trazer Rena, que confessou o desvio de comida. As mães receberiam trabalho adicional no túnel norte. Rena perderia o acesso ao depósito por três dias.

Por fim, a sacerdotisa ordenou que a raiz partida fosse pintada na parede da câmara com seu sentido oficial. Apropriava-se do sinal em vez de proibi-lo. Nima sentiu raiva e admiração. Serrilha oferecia joelho, parede e fila à marca que pretendia dominar.

Antes de dispensar as operárias, Serrilha chamou Nima para junto da raiz.

— Você reconhece este sinal?

— Agora todas reconhecem.

— Perguntei sobre antes.

Nima examinou os três cortes pintados. O traço central estava invertido em relação à lasca.

— Vi algo semelhante na entrada.

— Algo semelhante.

— A limpeza apagou depressa.

Serrilha desceu um degrau.

— Sinais sem mãe atraem formigas desejosas de adoção.

— E mães adotivas mudam o nome dos filhos.

Ogra aproximou a lança do flanco de Nima. Serrilha fez a guarda recuar com um movimento de antena.

— Você tem precisão, Nima. A precisão pode receber função.

— Sile recebeu uma?

— Sile confundiu cópia com autoridade.

— Onde ela está?

— Onde uma escriba aprende o peso do que decide guardar.

Serrilha tocou o corte central da pintura.

— Volte ao carregamento. Ainda há tempo para seus olhos servirem ao corpo certo.

Nima se afastou sabendo que fora reconhecida como ameaça e como candidata. A oferta de função era uma porta estreita: poderia entrar, aprender e ser digerida; poderia recusar e entregar a Serrilha um inimigo fácil de nomear.

Quando a assembleia terminou, Marga permaneceu junto à terceira saída.

— Sile está no poço seco — murmurou quando Nima passou.

No poço, uma fibra prendia o tórax da escriba. Tinta escura cobria seu rosto, e uma das patas estava ferida. Nenhuma guarda vigiava a entrada.

— Onde estão as cópias? — perguntou Nima.

— Serrilha levou duas.

— Você fez três.

Sile tocou uma rachadura da parede. Dentro dela havia pó de madeira coberto por sinais incompletos: asa entregue, raiz em dívida, mãe responde.

Nima rompeu a fibra.

— Saia pela câmara de descarte na quinta pancada.

— Qual interpretação venceu?

— A que ganhou parede.

Sile apoiou a pata ferida.

— Então ela venceu.

— Ganhou parede. Nós ganhamos prisão.

— Isso deveria me consolar?

— Vai fazer as outras perguntarem o que você escreveu.

Sile encarou Nima.

— Você sabia que isso aconteceria?

Nima não respondeu. A escriba compreendeu o bastante para se afastar dela antes de subir.

Naquela noite, a marca original foi apagada da borda superior. Marga cumpriu a ordem e alisou o barro até nenhum corte permanecer.

Ao mesmo tempo, o desenho oficial recebia visitantes na Boca da Raiz. Mães tocavam os três traços e pronunciavam a frase de Luma em voz baixa. Guardas perguntavam por que Sile fora presa. Uma operária afirmou ter visto quatro cortes. Outra jurou que a terra sangrara durante a limpeza. Cada versão aumentava o sinal retirado do chão.

Rena recuperou o acesso ao depósito antes do prazo, depois de entregar à sacerdotisa os nomes de duas mães mortas. As vivas entenderam o gesto e continuaram procurando comida com ela. Marga guardou a lasca de Taro sob a couraça. Sile escondeu o pó das cópias numa câmara de fungos. Luma começou a repetir o nome do filho na troca de cada turno, sempre diante de outra formiga.

Nima voltou à entrada antes da primeira pancada. Encontrou apenas barro liso. Ajoelhou e passou a antena pelo lugar onde Taro havia se segurado.

Duas operárias pararam atrás dela.

— Era aqui? — perguntou uma.

Nima se levantou.

— Aqui o quê?

As duas olharam a terra vazia e não souberam responder. Desceram levando a ausência consigo.

Quando a primeira pancada percorreu a colônia, já havia raízes partidas desenhadas em cinco câmaras. Nenhuma era igual à original.

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