A Permanência Móvel Religião das Formigas · Capítulo 31 de 36
Obra Menu

A Permanência Móvel

A sala foi desmontada antes da primeira fileira de alimento atravessar o corredor central.

Primeiro retiraram a placa de casca onde ficavam os sinais da mesa. Depois ergueram a borda de barro que separava as observadoras das carregadoras. Uma parede baixa, feita de grãos colados por saliva antiga, cedeu em três partes. Duas operárias levaram os pedaços no dorso. Uma terceira lambeu a marca que a parede deixou no chão e continuou lambendo até apagar a linha escura.

Pala ficou perto da entrada, sem tocar nada. Mera circulou pelo lado de fora, seguindo as partes retiradas. A parede viajou por um túnel estreito, passou por uma reserva de fibras secas e foi remontada perto da câmara onde antes se guardavam larvas adoecidas. A mesa foi junto. O altar recebeu uma fenda nova ao lado. As observadoras levaram seus lugares na memória das pernas.

Quando tudo terminou, o espaço tinha mudado, e as formigas se comportaram com cuidado demais.

Uma operária que antes passava livre pelo canto esquerdo parou diante do mesmo vazio. Não havia parede ali, ainda assim ela baixou a cabeça, contornou a ausência e perdeu tempo. Outra atravessou onde a mesa ficava, depois voltou para pedir autorização a uma borda que já tinha sido removida.

Fina registrou os enganos. Nima pediu que ela separasse tropeços por origem provável: hábito de parede, hábito de mesa, hábito de altar, hábito de espera.

Tova ouviu em silêncio.

A transferência nasceu de uma necessidade simples. O depósito de alimento começava a fermentar. O cheiro atraía fungo e confusão. Era preciso abrir passagem, limpar a umidade e afastar o centro de decisão por um ciclo. Nada exigia discurso. Bastava carregar madeira, barro e casca.

Ainda assim, quando a sala reapareceu em outro lugar, ela trouxe consigo a obediência antiga.

Uma placa sem inscrição foi posta no chão novo. Serrilha tocou a borda com as antenas e ordenou que ninguém cantasse até que a poeira baixasse. O silêncio produziu mais atenção que canto. As operárias que passavam perto diminuíam o passo. Olhavam para a casca lisa. A lisura já recebia peso.

Nima mandou medir a distância entre o local antigo e o novo. Queria uma lembrança precisa, feita de passos e desvios. O cálculo incluiria o tempo perdido e o retorno das formigas distraídas. As opacas receberam a tarefa de atravessar os dois lugares no mesmo ciclo e dizer onde o corpo hesitava.

Uma delas parou no antigo canto da mesa e tocou o chão limpo.

— Aqui ainda prende.

Fina escreveu.

Mera mordeu um fiapo de folha para não falar. Pala viu a mordida. As duas sabiam que qualquer frase boa demais ganharia morada.

A mobilidade reduziu o encanto da origem e aumentou o poder do transporte. Antes, a sala dizia: este lugar manda. Agora dizia: aquilo que manda pode ir embora e continuar mandando depois da mudança. A prisão deixou de depender da parede. A parede continuou viva nas pernas que a evitaram.

Tova caminhou pelo traço apagado no piso antigo. A língua da operária limpadora tinha removido a marca visível. A rota continuava respeitada. Formigas vinham com carga no dorso, diminuíam o ritmo, contornavam uma linha morta e retomavam caminho sem saber que obedeciam a um sulco inexistente.

Tova chamou Nima.

— Quanto tempo para esse desvio desaparecer?

Nima não respondeu de imediato. Tocou o chão. Olhou o fluxo. Seguiu uma carregadora que desviou, outra que atravessou, outra que parou. Depois voltou.

— Depende de quem lucra com a demora.

Tova aceitou a resposta sem gosto.

Serrilha aproximou-se da sala nova com três seguidoras. Elas carregavam uma lasca de raiz lisa. A lasca seria encostada no barro enquanto a nova posição recebia o primeiro canto. Tova mandou esperar. Serrilha inclinou a cabeça. A espera entrou no ritual antes do ritual.

Pala saiu pelo corredor lateral.

Mera veio atrás.

As duas seguiram restos deixados pela desmontagem. Um grão rachado caiu perto da antiga borda. Uma fibra úmida ficou presa ao teto baixo. Uma gota seca de saliva marcou a curva por onde a parede tinha passado. Nada servia para a mesa. Nada servia para o altar. Nada servia sequer para prova clara. Eram sobras do esforço.

Mera tocou a fibra úmida.

— Se alguém proteger, vira coisa grande.

Pala olhou em volta. Ninguém observava. A fibra tremia com a passagem de ar das carregadoras.

— Se ninguém proteger, some.

— Talvez sumir seja a única maneira de ficar fora.

Pala pensou na casca verdadeira escondida. Pensou nos sinais pobres, nas miniaturas, na forma como tudo que resistia acabava recebendo uso. A fibra não sabia resistir. A fibra apenas pendia.

Uma operária comum passou e bateu nela com o dorso. A fibra caiu, grudou numa pata, foi arrastada por alguns passos e se misturou a farelo de ração. Mera acompanhou até a curva. Pala segurou sua antena com delicadeza.

— Não.

Mera parou.

As duas ficaram sem saber se tinham perdido algo ou protegido a perda. Esse intervalo era mais difícil que qualquer plano.

Na sala nova, Nima recolheu os relatos das opacas. Algumas diziam que a ausência antiga segurava mais que a parede nova. Outras diziam que a novidade assustava por falta de desgaste. Fina acumulou placas. Tova viu o volume das placas e compreendeu que a mudança de lugar tinha criado outra permanência.

Ao fim do ciclo, a mesa funcionou. O altar cantou. As operárias desviaram onde antes havia parede e fizeram fila diante da casca lisa que ainda não trazia inscrição.

Tova mandou remover a casca lisa por uma noite.

Duas carregadoras a levaram para um canto seco. Mesmo sem casca, algumas formigas pararam diante do lugar vazio. Outras tocaram o chão e seguiram. Uma jovem operária tentou deixar ali um pedaço de alimento, por não saber se aquilo era depósito, altar ou erro. Nima registrou o gesto. Serrilha pediu autorização para chamar a cena de oferta sem destinatário. Tova recusou com o corpo, afastando a placa de registro para longe da fala.

Ninguém discutiu. A recusa física bastou por alguns instantes.

Pala voltou ao antigo corredor durante a baixa circulação. Procurou a fibra levada pela pata da operária. Não encontrou. Havia só poeira, uma mancha escura e o cheiro fraco de saliva seca.

Mera não perguntou se a busca tinha dado certo. Essa pergunta já estragaria a coisa.

Ao amanhecer, a sala nova recebeu de volta a casca lisa. O aparelho estava inteiro, embora suas peças tivessem passado a noite separadas. Tova observou o retorno sem solenidade. A maturidade do domínio residia na capacidade de viajar, dormir desmontado e acordar obedecido.

No corredor antigo, a linha apagada continuou recebendo desvios. No novo, a casca lisa começou a receber esperas. Entre uma coisa e outra, a fibra desaparecida deixou apenas uma dificuldade: ninguém sabia se devia lamentar, registrar ou ficar quieto.

Pala escolheu a quietude. Mera também.

Essa escolha não salvou nada. Apenas retirou uma pequena sobra do alcance imediato da mesa.

1/1
Menu

Fazer anotação