A Guarda dos Restos
Tova escolheu cinco operárias sem lugar alto.
Nenhuma tinha servido como opaca. Nenhuma vinha da mesa. Nenhuma conhecia os cantos por dentro. Eram corpos de trabalho comum, patas gastas, antenas marcadas por poeira, mandíbulas boas para carregar pedaços pequenos. Tova chamou uma a uma perto do depósito antigo, longe da sala móvel.
A primeira se chamava Sula. Tinha costas largas e excesso de prontidão. A segunda era Veme, que examinava tudo antes de aceitar uma ordem. A terceira quase não falava. As outras duas ouviam com a cabeça baixa.
Tova pôs diante delas uma fibra esmagada, retirada do chão onde a parede tinha passado.
— Vocês ficam perto de coisas assim.
Sula tocou a fibra.
— Para guardar?
— Para impedir uso rápido.
Veme ergueu a cabeça.
— Se ficamos perto, já damos uso.
Tova olhou para ela com atenção verdadeira. A objeção era boa e já nascia perigosa.
— Então fiquem perto pelo menor tempo necessário.
Sula não gostou da resposta. Gostaria de uma borda clara, um direito, talvez uma postura especial. Tova viu o desejo antes que ele recebesse palavras. Por isso não deu canto, insígnia, marca ou fila. Deu apenas turno curto e distância.
A guarda começou sem anúncio.
A fibra esmagada ficou no chão. As cinco formigas formaram um arco solto em volta dela. Ninguém impedia a passagem. Apenas desviavam patas maiores quando uma carregadora vinha distraída. A fibra não melhorou. Não ganhou brilho. O pó grudado nela continuou pó. Uma ponta úmida escureceu. O objeto protegido tinha menos dignidade que o círculo armado ao redor.
Fina apareceu depois do primeiro quarto de ciclo.
Sula endireitou o corpo.
— Temos registro?
Fina olhou para Tova. Tova olhou para a fibra.
— Só hora de início e hora de fim.
Nima chegou em seguida, trazida pela notícia dos passos parados. Não precisou perguntar muito. Mediu a distância entre a fibra e cada guarda. Contou quantas carregadoras desviavam. Marcou uma irritação, duas curiosidades, três atrasos. A fibra, inútil sozinha, começou a produzir números.
Mera observava de um buraco lateral. Pala estava com ela.
— Agora ela trabalha.
Pala assentiu. A fibra trabalhava sem querer. O corpo esmagado atraía medida, turno e cabeça erguida. Seu não uso criava ocupação.
Serrilha veio ao final da tarde. Não trouxe seguidoras. Ajoelhou diante do arco de guardas, sem encostar na fibra.
— O que foi deixado também pertence à raiz.
Ninguém respondeu. O silêncio serviu para Serrilha. Ela baixou mais a cabeça e ficou ali, imóvel. Logo duas operárias que passavam imitaram a inclinação. Sula viu e abriu um pouco mais as pernas, ocupando espaço.
Veme sussurrou:
— Isso já é uso demais.
A terceira guarda, a silenciosa, empurrou uma pedrinha com a pata até fora do arco. O gesto era prático. Mesmo assim Fina anotou a pedrinha. Nima mediu o empurrão. Serrilha viu no deslocamento uma delicadeza. A guarda silenciosa ganhou atenção sem ter pedido.
No ciclo seguinte, Tova reduziu a duração dos turnos.
Sula protestou.
— A fibra fica vulnerável.
— A fibra sempre esteve vulnerável.
— Agora temos função.
Tova sentiu o ponto duro da frase. A função já se defendia melhor que o resto.
A experiência continuou com objetos menores. Um grão rachado que não servia para alimento. Uma lasca de casca com escrita incompleta. Um montinho de poeira que escurecia a borda do túnel. Cada resto recebia guarda por tempo limitado. Cada guarda atraía uma pergunta. Cada pergunta atraía registro. O objeto sumia sob a sombra de quem tentava poupá-lo.
As operárias comuns começaram a detestar os restos.
Uma carregadora desviou do grão rachado e perdeu metade da carga. Outra precisou contornar a poeira e bateu contra uma parede. Uma copista atrasada parou diante da lasca de casca, irritada com a própria hesitação.
— Queria varrer tudo.
Pala ouviu.
Mera também.
Fina tinha ido buscar outra placa. Nima estava na sala nova. Serrilha cantava longe, diante de um buraco vazio. A frase da copista ficou sem acolhimento. A copista não repetiu. Apenas arrastou as antenas pelo chão e seguiu.
Pala sentiu vontade de guardar a frase. Quase chamou Mera. Quase correu até Fina. A vontade era uma boca aberta. Ela fechou a boca.
Mera ficou imóvel ao lado dela. Depois as duas saíram sem olhar para trás.
Tova encontrou outro resto ao cair do ciclo: poeira comum debaixo de uma tábua velha. Não escolheu. Não avisou as guardas. Não chamou Nima. Ficou olhando o acúmulo escuro, uma massa sem desenho, feita de restos de pés, alimento, barro seco e casca moída. Aquilo existia por falta de atenção.
Uma copista passou carregando placas lavadas. Viu a poeira. Largou as placas por um instante, raspou o chão com a borda da mandíbula e jogou tudo para o corredor úmido. A poeira se abriu, escorreu, perdeu corpo.
Tova não a impediu.
A copista pegou as placas e continuou. Não sabia que tinha removido um problema da mesa, um possível canto do altar e uma futura descoberta de Pala. Sua ignorância limpou melhor que qualquer regra.
Na sala móvel, Nima reuniu notas sobre a guarda. Falou de custo, desvio, vínculo, dano evitado, dano produzido. Tova ouviu só até certo ponto. Depois afastou-se. A enumeração estava correta. Por isso mesmo precisava ser vigiada.
Serrilha pediu uma pequena cerimônia para encerrar cada turno. Tova recusou. Serrilha criou, então, um gesto privado de cabeça baixa. O gesto espalhou-se sem autorização. Sula aprendeu primeiro. Depois as outras. Veme executava pela metade. A guarda silenciosa não executava e, por causa disso, passou a ser observada com mais força.
Tova reduziu outra vez os turnos.
Sula perdeu a paciência.
— Desse jeito a guarda acaba.
— Talvez precise acabar sempre.
Veme gostou da frase. Fina anotou. Tova percebeu tarde. O que deveria enfraquecer a função já virava princípio.
Pala e Mera voltaram ao ponto da copista irritada. Nenhum sinal da frase permanecia. Havia marcas de pata, cheiro de carga e um risco de mandíbula no chão. Pala abaixou a cabeça até quase encostar no risco.
— Ela disse sem querer.
— Melhor assim.
— E se fosse a frase que faltava?
Mera demorou.
— Então faltou.
A resposta doeu em Pala por sua pobreza. Não oferecia método, salvação ou vitória. Só permitia que uma perda fosse perda.
No fim do ciclo, a fibra esmagada ainda existia. Estava mais famosa. O grão rachado ainda existia. Tinha sido medido. A lasca incompleta fora copiada para evitar que desaparecesse sem testemunho. A poeira debaixo da tábua sumira. A frase da copista também.
Tova passou diante da guarda e não parou. Sula endireitou o corpo para ser vista. Veme olhou para o chão. A guarda silenciosa afastou uma pata de cima de um farelo e deixou o farelo entregue ao corredor.
Uma carregadora veio logo depois e levou o farelo grudado no tornozelo.
Ninguém percebeu a partida.
Esse foi o primeiro resultado limpo da guarda: aquilo que deixara passar sem querer.