O Corte no Alto
O segundo estalo veio antes que Veme encontrasse Tova.
Foi mais comprido que o primeiro. A madeira reclamou acima das câmaras com uma voz seca, cheia de fibras partidas. As formigas pararam em pontos diferentes do túnel. Algumas ergueram alimento no ar. Outras apertaram larvas contra o peito. Nace continuou com a mandíbula cheia de poeira, porque ninguém tinha dito onde largar.
Depois caiu uma chuva fina de pó.
Madeira amarga, moída no corpo alto da árvore, caía sobre a colônia. O pó entrou nos olhos de Fina, cobriu a casca lisa da sala móvel e deixou as antenas de Serrilha brancas na ponta. A sacerdotisa levantou a cabeça.
— A raiz fala.
Tova apareceu pelo corredor lateral.
— A raiz quebra.
A diferença entre as frases atravessou o lugar antes de qualquer ordem. Serrilha reuniu as iniciadas perto do altar novo. Nima chegou logo depois, carregando mapas dobrados com a ajuda de Zai. Pala e Mera vieram do corredor de retorno. Nace largou a poeira no chão e olhou para a sujeira que tinha acabado de limpar.
O terceiro estalo abriu uma fenda no teto da câmara da rainha.
Ninguém viu o alto. Lá fora, criaturas grandes mordiam o tronco com lâminas e força sem nome. Dentro, as formigas conheceram apenas consequência: o som de corte, a trepidação, a raiz principal torcendo, o ar mudando de cheiro. A câmara da rainha recebeu primeiro uma chuva de serragem. Depois uma lasca grossa rompeu a parede superior e esmagou parte do piso onde ficavam as alimentadoras.
A rainha antiga não gritou. Seu corpo pesado moveu-se pouco. As operárias em volta tentaram abrir espaço. O teto cedeu outra vez. Uma placa viva de madeira atravessou a câmara e prendeu metade do abdome real contra a parede úmida.
Dala estava na câmara de reserva, mais abaixo. Não viu a queda. Sentiu o tremor. As duas guardas que a alimentavam saíram correndo, voltaram, saíram outra vez, sem saber se protegiam a continuidade ou se obedeciam ao pânico.
O depósito de alimento foi bloqueado em seguida. A raiz principal, ao torcer, empurrou barro para dentro da passagem mais larga. Grãos, larvas secas e cascas de ração ficaram atrás de uma parede recém-nascida. Três carregadoras tentaram cavar. O barro caiu sobre elas. Duas saíram. A terceira ficou com as patas traseiras presas.
Nima abriu o primeiro mapa no chão.
— Corredor baixo para larvas.
Serrilha começou um canto curto para manter a fileira unida. Funcionou por alguns passos. As operárias repetiam a cadência e não se atropelavam. Depois a repetição atrasou a retirada de uma câmara lateral. Fêmeas jovens esperaram o verso terminar antes de atravessar. Um pedaço de teto caiu entre elas e a saída.
Tova empurrou Serrilha com o corpo.
— Cante andando.
Serrilha quase respondeu. O teto rangeu. Ela andou.
Pala seguiu Mera até o corredor da cela de Trima. A grade antiga, feita de fragmentos de raiz colados, tinha rachado no meio. O impacto abrira uma passagem estreita. Trima estava do outro lado, coberta de pó, viva, com uma pata ferida e a lasca das perguntas ainda presa perto do corpo.
Mera tocou a fenda.
— Dá para passar.
Trima levantou a cabeça.
— Agora?
Pala não entendeu se era pergunta, acusação ou riso cansado.
— Agora.
As duas puxaram barro. Trima empurrou de dentro. A grade cedeu com um ruído baixo. Quando o buraco ficou do tamanho de um corpo magro, Trima saiu sem agradecer. Encostou-se na parede, respirou, olhou para cima.
— Quem abriu?
Mera respondeu:
— O corte.
Trima tocou a madeira quebrada.
— Então ninguém vai poder chamar isso de perdão.
Pala quis dizer que chamariam. Não disse. Havia peso demais caindo para gastar boca com previsão.
Nima coordenava a retirada com rapidez brutal. Seus mapas tinham erros. Um corredor marcado como seguro estava cheio de pó quente. Uma rota estreita que ela considerava secundária recebia ar limpo. Ainda assim, os mapas davam algum começo. Sem eles, as fileiras voltariam à câmara da rainha por hábito. Com eles, ao menos erravam em direção útil.
Marga apareceu carregando uma placa quebrada.
— O mapa da raiz antiga falhou.
Nima não olhou para ela.
— Então escreva a falha depois que as larvas passarem.
Marga escreveu mesmo correndo. Era seu jeito de não obedecer inteiro.
Tova foi até a câmara da rainha com duas carregadoras. Encontrou o corpo real preso, cercado de alimentadoras sem função. A rainha movia as antenas com lentidão. Uma gota escura saía da boca. Serragem grudava no ventre.
Serrilha chegou atrás.
— Precisamos do último canto.
Tova examinou o teto. Outra fenda se abria. O último canto custaria corpos.
— Não aqui.
— Ela é a raiz viva.
— Ela é um corpo preso sob madeira.
As alimentadoras ouviram. Algumas recuaram, feridas pela frase. Outras se aproximaram, libertas por ela. Tova tocou a cabeça da rainha. Não havia ordem ali, só calor morrendo.
— Retirem quem anda.
Serrilha puxou o canto para o corredor, curto e quebrado. Dessa vez ajudou. As alimentadoras saíram no ritmo, levando ovos que conseguiram alcançar. A rainha ficou. Uma parte do teto desceu devagar, em rangido, e fechou a câmara antiga com seu corpo dentro.
Quando Tova voltou, Nima já tinha três filas em conflito. Larvas no corredor baixo. Alimento preso atrás da barreira. Dala ainda na reserva. Trima livre e recusando qualquer escolta. Orfa apareceu pela passagem lateral com duas operárias cobertas de lama e cheiro de água limpa. Ninguém a saudou. O alívio era urgente demais para receber nome.
— Há água no lado partido — Orfa disse.
Nima abriu outro mapa.
— Quantas passam?
— Poucas. Com carga, menos.
Sile continuava ausente. O nome apareceu em três bocas e não encontrou corpo.
Nace varria perto da entrada da sala móvel, por puro reflexo. Pó caía de novo, e ela empurrava para o canto. Sula tentou mandá-la para a fila das guardas. Nace perguntou se alguém iria escorregar naquele pó. Sula ficou sem resposta. Tova viu e apontou para Nace.
— Limpe só onde há passagem.
Nace obedeceu. Sem entender, salvou uma rota pequena. Três larvas passaram por ali sem cair.
A árvore recebeu, do alto, o golpe maior.
A raiz principal rompeu. O estrondo de uma queda atravessou a colônia inteira. O chão subiu, desceu e abriu uma boca no corredor de alimento. A sala móvel tombou de lado. A casca lisa partiu na borda. O altar novo perdeu a lasca. As placas de Fina deslizaram para a lama.
Por um instante, toda doutrina ficou no chão.
Depois vieram os corpos.
Nima viu duas possibilidades no mesmo golpe. Se abrisse o corredor do alimento, muitas adultas comeriam e teriam força para cavar. Se abrisse primeiro a câmara das larvas, perderiam tempo e talvez comida, com continuidade preservada. Se mandasse metade para cada lado, as duas tarefas falhariam.
Tova chegou coberta de serragem.
— Escolha.
Nima olhou para Dala sendo retirada da reserva por quatro operárias. Olhou para Trima, que ajudava uma larva sem pedir lugar. Olhou para Serrilha, cantando no ritmo do movimento. Olhou para Pala, parada diante de um pedaço de casca pisado. Olhou para Nace, limpando a passagem sem saber que entrara no mapa.
A antiga rainha estava morta. O depósito estava fechado. A cela estava aberta. A árvore sagrada caía por cima de todas.
Nima pôs a pata no mapa mais molhado.
— Larvas primeiro.
As carregadoras do alimento protestaram. O protesto não recebeu julgamento. Recebeu ordem.
— Depois abrimos comida. Agora larvas.
O corredor escolhido engoliu todas as forças disponíveis. Atrás da barreira de barro, a comida começou a fermentar no escuro. Na câmara baixa, as primeiras larvas passaram para a rota de água limpa. A decisão salvou uma parte da colônia e abandonou outra antes que houvesse tempo de chamar abandono por nome.