Pedras sob custódia Religião das Formigas · Capítulo 10 de 36
Obra Menu

Pedras sob custódia

A ordem chegou antes do primeiro turno. Toda pedra escura deixada no Tribunal da Dívida seria entregue à Boca da Raiz para purificação, contagem e exame de origem.

As guardas repetiram a frase pelos túneis. Pedra escura voltou a significar corpo preso.

Nima reuniu as peças sobre a tábua. Cada pedra ficou ao lado da lasca correspondente e da formiga que falara por ela. Marga perguntou se deveriam esconder as estreitas.

— Esconder prova o roubo antes do confisco — respondeu Nima.

— Entregar apaga os casos.

— Vamos entregar diante das bocas.

Ogra chegou com seis guardas e uma cesta de fungo amargo para lacrar as pedras. Exigiu listas, fontes e localização das lascas estreitas.

Marga entregou somente os registros públicos.

— Faltam peças.

— Faltam em toda devolução da Boca — disse Marga.

Ogra ergueu a lança. Nima apontou para as reclamantes reunidas.

— Cada uma reconhecerá sua pedra antes que saia.

Serrilha entrou quando o confronto já tinha plateia.

— A custódia protege as provas da fome de interpretação.

— Quem protege as provas da custódia? — perguntou Pala.

Serrilha não respondeu à nutridora. Tocou a primeira pedra e declarou que a raiz guardaria matéria, nome e lembrança.

Vessa entregou a própria peça. Antes de colocá-la na cesta, mordeu uma borda e deixou um sulco novo. Outras fizeram o mesmo. Ogra tentou impedir. Serrilha permitiu.

— A raiz recebe também o medo de quem entrega.

O gesto de resistência virou componente do rito.

No fim da coleta, Sile não estava junto das escribas.

Nima enviou Marga à câmara do fungo, onde as cópias clandestinas permaneciam escondidas. O pó continuava ali. A lasca pessoal de Sile havia sumido. Na mesa oficial, seu nome fora raspado da lista de escribas de turno.

Rívia afirmou que Sile saíra antes da chegada das guardas.

— Para onde?

— Pediu água.

— Levou alguma lasca?

— Estava com as patas vazias.

Marga examinou a mesa onde Sile trabalhara. Havia uma mancha clara sob a borda, lugar protegido da raspagem. Três cortes minúsculos formavam a raiz partida.

— Ela sabia que viriam.

— Ou alguém marcou depois — disse Nima.

Pala trouxe Ina, que vira Sile no corredor das nutridoras.

— Ela estava sozinha? — perguntou Marga.

Ina tocou a própria boca.

— Não faça a criança transformar silêncio em resposta — disse Pala.

Nima ofereceu água à pequena e encerrou a pergunta. Quando Ina saiu, Marga acusou:

— Você prefere uma testemunha incompleta a uma resposta que não controla.

— Prefiro não fabricar lembrança em criança assustada.

— Aprendeu tarde.

— Ogra levou? — perguntou Nima.

— Ninguém viu.

— Alguém sempre vê.

Marga chamou as crianças que vigiavam cestas de alimento. Nere observara duas guardas levando fungo claro para a galeria do sal. Tula afirmava ter visto Sile atravessar sozinha a passagem de água.

As versões apontavam direções opostas.

Três pedras voltaram no dia seguinte. Estavam limpas demais, sem fungo, corte ou cheiro de mão. A lista trazia nomes de guardas e nenhuma referência aos casos.

Nima colocou as peças numa cavidade visível e chamou-as de Pedras Sem Rosto.

— A Madre devolveu — disse Ogra.

— Devolveu objetos — respondeu Nima. — As reclamantes devolverão memória.

Nenhuma reconheceu as pedras. O apagamento ganhou moldura e público.

Marga revelava cópias cegas escondidas sob a tábua, marcadas apenas por turno, categoria e sulco. Esperou aprovação.

— Você decidiu sozinha — disse Nima.

— Decidi que alguma coisa precisava sobreviver a você e a Serrilha.

Nima teve vontade de tomar as lascas. Em vez disso, criou a função de guardiã das cópias cegas. A promoção dava alcance a Marga e colocava sua desobediência sob regra.

— Confiança com inventário — disse Pala.

— Arquivo sem inventário vira posse privada.

— E arquivo com inventário pertence a quem fecha a gaveta.

Naquela noite, uma tira de casca chegou dentro de uma cesta de fungo. Trazia um círculo, três cortes e a raiz partida. Abaixo, uma frase: sal aumenta; boca resiste.

Trima apareceu pouco depois.

Era uma guarda de corredor, conhecida pelo nome inscrito na pedra de Vessa. Trazia a couraça riscada por jornadas longas.

— O alimento de Sile mudou de túnel — disse.

Marga avançou.

— Você viu Sile?

— Vi a cesta entrar.

— Perguntei pelo corpo.

— Guardas de custódia não olham para dentro.

Nima ofereceu retirar o nome de Trima do retorno pendente de Vessa.

— Meu nome fica — respondeu a guarda. — Quero proteção quando procurarem quem trouxe a casca.

— Foi Sile que escreveu?

— A cesta saiu da cela atribuída à escriba.

— Atribuída por quem?

Trima olhou para as Pedras Sem Rosto.

— Pela mesma boca que limpa pedra.

Nima criou o Circuito da Custódia. Toda comida destinada a corpo retido produziria lasca de origem, caminho e sobra. Ausência de sobra exigiria testemunha.

A regra apresentava forma de cuidado. Também obrigava cada formiga próxima às celas a responder à mesa.

Na segunda noite, outra casca chegou. Os mesmos sinais estavam invertidos. A frase dizia: parem de contar minha comida.

Sile podia ter escrito as duas. Uma guarda podia ter fabricado ambas. Serrilha podia alimentar versões rivais para levar a mesa até uma cela escolhida.

Marga colocou as cascas lado a lado.

— Qual delas entra no arquivo?

— As duas.

— Com que categoria?

Nima pensou no prisioneiro capaz de mentir para o altar e para a mesa.

— Resposta contraditória sob custódia.

Pala leu as frases.

— A primeira pede que contem. A segunda manda parar.

— Um corpo preso muda de ideia.

— Ou duas bocas usam o mesmo nome.

Trima virou a segunda casca. No verso havia resíduos de sal.

— Esta passou pela galeria. A primeira veio pela cozinha.

— São celas diferentes? — perguntou Marga.

— Ou caminhos feitos para vocês medirem.

Nima pediu as listas de alimento. Duas cestas claras haviam saído na mesma hora, cada uma atribuída a Sile. Uma voltou com sobra; a outra, vazia.

O circuito criava dois prisioneiros no papel e nenhum corpo verificável.

Trima ouviu a decisão sem alívio. A partir daquele momento, cada cesta que tocasse a prenderia ao circuito de Nima e à vigilância de Serrilha.

Sile desaparecera entre dois registros. O sumiço já alimentava duas autoridades.

1/1
Menu

Fazer anotação