Pedras sob custódia
A ordem chegou antes do primeiro turno. Toda pedra escura deixada no Tribunal da Dívida seria entregue à Boca da Raiz para purificação, contagem e exame de origem.
As guardas repetiram a frase pelos túneis. Pedra escura voltou a significar corpo preso.
Nima reuniu as peças sobre a tábua. Cada pedra ficou ao lado da lasca correspondente e da formiga que falara por ela. Marga perguntou se deveriam esconder as estreitas.
— Esconder prova o roubo antes do confisco — respondeu Nima.
— Entregar apaga os casos.
— Vamos entregar diante das bocas.
Ogra chegou com seis guardas e uma cesta de fungo amargo para lacrar as pedras. Exigiu listas, fontes e localização das lascas estreitas.
Marga entregou somente os registros públicos.
— Faltam peças.
— Faltam em toda devolução da Boca — disse Marga.
Ogra ergueu a lança. Nima apontou para as reclamantes reunidas.
— Cada uma reconhecerá sua pedra antes que saia.
Serrilha entrou quando o confronto já tinha plateia.
— A custódia protege as provas da fome de interpretação.
— Quem protege as provas da custódia? — perguntou Pala.
Serrilha não respondeu à nutridora. Tocou a primeira pedra e declarou que a raiz guardaria matéria, nome e lembrança.
Vessa entregou a própria peça. Antes de colocá-la na cesta, mordeu uma borda e deixou um sulco novo. Outras fizeram o mesmo. Ogra tentou impedir. Serrilha permitiu.
— A raiz recebe também o medo de quem entrega.
O gesto de resistência virou componente do rito.
No fim da coleta, Sile não estava junto das escribas.
Nima enviou Marga à câmara do fungo, onde as cópias clandestinas permaneciam escondidas. O pó continuava ali. A lasca pessoal de Sile havia sumido. Na mesa oficial, seu nome fora raspado da lista de escribas de turno.
Rívia afirmou que Sile saíra antes da chegada das guardas.
— Para onde?
— Pediu água.
— Levou alguma lasca?
— Estava com as patas vazias.
Marga examinou a mesa onde Sile trabalhara. Havia uma mancha clara sob a borda, lugar protegido da raspagem. Três cortes minúsculos formavam a raiz partida.
— Ela sabia que viriam.
— Ou alguém marcou depois — disse Nima.
Pala trouxe Ina, que vira Sile no corredor das nutridoras.
— Ela estava sozinha? — perguntou Marga.
Ina tocou a própria boca.
— Não faça a criança transformar silêncio em resposta — disse Pala.
Nima ofereceu água à pequena e encerrou a pergunta. Quando Ina saiu, Marga acusou:
— Você prefere uma testemunha incompleta a uma resposta que não controla.
— Prefiro não fabricar lembrança em criança assustada.
— Aprendeu tarde.
— Ogra levou? — perguntou Nima.
— Ninguém viu.
— Alguém sempre vê.
Marga chamou as crianças que vigiavam cestas de alimento. Nere observara duas guardas levando fungo claro para a galeria do sal. Tula afirmava ter visto Sile atravessar sozinha a passagem de água.
As versões apontavam direções opostas.
Três pedras voltaram no dia seguinte. Estavam limpas demais, sem fungo, corte ou cheiro de mão. A lista trazia nomes de guardas e nenhuma referência aos casos.
Nima colocou as peças numa cavidade visível e chamou-as de Pedras Sem Rosto.
— A Madre devolveu — disse Ogra.
— Devolveu objetos — respondeu Nima. — As reclamantes devolverão memória.
Nenhuma reconheceu as pedras. O apagamento ganhou moldura e público.
Marga revelava cópias cegas escondidas sob a tábua, marcadas apenas por turno, categoria e sulco. Esperou aprovação.
— Você decidiu sozinha — disse Nima.
— Decidi que alguma coisa precisava sobreviver a você e a Serrilha.
Nima teve vontade de tomar as lascas. Em vez disso, criou a função de guardiã das cópias cegas. A promoção dava alcance a Marga e colocava sua desobediência sob regra.
— Confiança com inventário — disse Pala.
— Arquivo sem inventário vira posse privada.
— E arquivo com inventário pertence a quem fecha a gaveta.
Naquela noite, uma tira de casca chegou dentro de uma cesta de fungo. Trazia um círculo, três cortes e a raiz partida. Abaixo, uma frase: sal aumenta; boca resiste.
Trima apareceu pouco depois.
Era uma guarda de corredor, conhecida pelo nome inscrito na pedra de Vessa. Trazia a couraça riscada por jornadas longas.
— O alimento de Sile mudou de túnel — disse.
Marga avançou.
— Você viu Sile?
— Vi a cesta entrar.
— Perguntei pelo corpo.
— Guardas de custódia não olham para dentro.
Nima ofereceu retirar o nome de Trima do retorno pendente de Vessa.
— Meu nome fica — respondeu a guarda. — Quero proteção quando procurarem quem trouxe a casca.
— Foi Sile que escreveu?
— A cesta saiu da cela atribuída à escriba.
— Atribuída por quem?
Trima olhou para as Pedras Sem Rosto.
— Pela mesma boca que limpa pedra.
Nima criou o Circuito da Custódia. Toda comida destinada a corpo retido produziria lasca de origem, caminho e sobra. Ausência de sobra exigiria testemunha.
A regra apresentava forma de cuidado. Também obrigava cada formiga próxima às celas a responder à mesa.
Na segunda noite, outra casca chegou. Os mesmos sinais estavam invertidos. A frase dizia: parem de contar minha comida.
Sile podia ter escrito as duas. Uma guarda podia ter fabricado ambas. Serrilha podia alimentar versões rivais para levar a mesa até uma cela escolhida.
Marga colocou as cascas lado a lado.
— Qual delas entra no arquivo?
— As duas.
— Com que categoria?
Nima pensou no prisioneiro capaz de mentir para o altar e para a mesa.
— Resposta contraditória sob custódia.
Pala leu as frases.
— A primeira pede que contem. A segunda manda parar.
— Um corpo preso muda de ideia.
— Ou duas bocas usam o mesmo nome.
Trima virou a segunda casca. No verso havia resíduos de sal.
— Esta passou pela galeria. A primeira veio pela cozinha.
— São celas diferentes? — perguntou Marga.
— Ou caminhos feitos para vocês medirem.
Nima pediu as listas de alimento. Duas cestas claras haviam saído na mesma hora, cada uma atribuída a Sile. Uma voltou com sobra; a outra, vazia.
O circuito criava dois prisioneiros no papel e nenhum corpo verificável.
Trima ouviu a decisão sem alívio. A partir daquele momento, cada cesta que tocasse a prenderia ao circuito de Nima e à vigilância de Serrilha.
Sile desaparecera entre dois registros. O sumiço já alimentava duas autoridades.