A Boca da Rainha Religião das Formigas · Capítulo 13 de 36
Obra Menu

A Boca da Rainha

O rito começou antes da primeira distribuição.

Serrilha fez abrir um círculo junto à raiz principal. No centro, as sete migalhas da contagem anterior formavam uma boca sem cabeça. Duas guardas vigiavam a entrada. Outras duas recolhiam alimento das operárias que desejavam contar de volta.

Cada retorno custava duas migalhas.

Uma mãe trouxe apenas uma. A guarda empurrou o alimento para fora do círculo.

— Insuficiência declarada diante da mesa — disse Nima.

Marga riscou a marca correspondente e devolveu a migalha à mãe.

Serrilha ergueu uma fibra do altar.

— A árvore recebe por inteiro.

— A árvore não emitiu recibo — respondeu Nima.

As formigas ao redor baixaram as antenas. Serrilha permitia ataques a auxiliares, guardas e bocas menores. Exigir uma resposta da rainha alcançava o corpo que dava nome à ordem e permanecia escondido dela.

Nima colocou uma lasca larga diante das pedras.

— A Contagem das Bocas exige saber o que a rainha sustenta, o que recebe e por qual boca responde.

Serrilha circulou a lasca sem tocá-la.

— A rainha pertence à árvore.

— A árvore está sob a mesa?

— Acima.

— Então desça para responder.

Ogra bateu as mandíbulas. As guardas apertaram o círculo. Serrilha fez um sinal curto e conteve a capitã.

— A mesa pede uma voz ou um corpo?

Marga respondeu:

— Uma responsabilidade.

— Responsabilidade é palavra de quem corta a raiz em gavetas.

— E mistério é palavra de quem alimenta uma boca sem contar quanto ela come — disse Pala.

Serrilha olhou para Trima. Desde a abertura da contagem, a intermediária mantinha uma pata sobre a marca de sua passagem. Tinha preparado três versões da mesma inscrição: uma para a mesa, outra para o altar e uma terceira dobrada sob o tórax.

— Você levará a pergunta — decidiu Serrilha.

Trima não se moveu.

— Levo perguntas. Não viro resposta.

— Sua função é atravessar.

— Minha função termina quando volto.

Nima entregou-lhe a lasca. Nela, Marga havia escrito três perguntas: quanto alimento entrava, quantos corpos serviam e quem autorizava punição em nome da rainha.

Trima examinou os riscos.

— Falta uma.

— Qual? — perguntou Nima.

— Quem responde quando eu não voltar?

Marga acrescentou a frase no verso. Nima marcou horário, testemunhas e condição de retorno. Serrilha se recusou a pressionar a pata na argila.

— O altar não assina ordens da mesa.

— Então registraremos recusa.

Trima pegou a lasca e entrou pelo corredor que seguia atrás da raiz.

A cerimônia continuou sem ela.

Nima mandou separar as oferendas em três montes: alimento entregue por fé, por medo e por necessidade de obter recibo. Serrilha reuniu tudo de novo com um movimento.

— A rainha come sem distinguir a intenção.

— A boca de fora também — disse Tula.

Nere puxou a irmã pela antena, tarde demais.

O golpe veio do alto.

Terra seca caiu sobre o círculo. A raiz principal vibrou. Duas câmaras vazias cederam atrás do depósito, esmagando cascas e apagando marcas antigas. Uma pata grossa atravessou o teto por um instante. O cheiro de animal inundou os túneis.

As operárias correram para as paredes. Ogra empurrou as crianças para baixo de uma placa. Pala protegeu as lascas com o corpo. Outro golpe fez tombar o monte de oferendas.

Serrilha subiu na parte exposta da raiz.

— A boca da rainha respondeu.

O pânico abriu espaço ao redor dela.

— Duas câmaras estavam vazias — disse Marga.

— Porque a árvore retirou os obedientes.

— Estavam vazias desde a coleta passada.

— A árvore escolheu onde golpear.

Tula saiu debaixo da placa com terra cobrindo o dorso.

— O animal cheira todas igual.

Nima ouviu. A frase ameaçava Serrilha e também a mesa. Um perigo que não escolhia culpa não aceitava recibo, defesa ou recurso.

Ela escreveu: boca de fora sem doutrina de escolha.

Serrilha ordenou que o alimento derramado fosse recolhido. Usou metade para as operárias que reforçariam o teto e levou a outra metade ao altar. Cada porção foi anunciada em nome da rainha.

O medo devolveu a Serrilha aquilo que a contagem havia retirado: comando imediato, alimento disponível e corpos dispostos a trabalhar antes de perguntar.

Nima instalou uma tábua junto às câmaras destruídas.

Quem recebesse ração de reparo deixaria marca. Quem entregasse alimento por receio de novo golpe receberia recibo de castigo. Quem perdesse abrigo indicaria o tamanho da perda.

— Recibo de castigo? — perguntou Rena.

— Se Serrilha chama de punição, registramos quem pagou.

— A pata de fora vai assinar?

— A boca que usa o golpe para governar assina por ela.

Serrilha não impediu a distribuição dos recibos. Precisava da lista para saber quais câmaras seriam reconstruídas primeiro.

Ao final do turno, vinte e seis operárias tinham recebido alimento no nome da rainha. Onze entregaram parte da própria reserva por medo. Sete perderam abrigo. Duas recusaram a interpretação de castigo e aceitaram trabalhar mesmo assim.

Nima somou as marcas e colocou o título no alto da tábua: Boca da Rainha.

A expressão passou de antena em antena. Antes daquele dia, a rainha era origem, ventre e distância. Depois da tábua, também era uma linha de distribuição, uma justificativa para desvio e um lugar onde registrar dívida.

Marga percebeu a transformação.

— Você deu uma boca à rainha.

— Serrilha deu.

— Você deu arquivo.

— Agora podemos exigir resposta.

— Ou qualquer uma pode falar por ela e disputar a melhor contabilidade.

Nima manteve a tábua exposta.

Quando o escuro de descanso chegou, Trima ainda não havia voltado.

Serrilha disse que a intermediária permanecia no circuito interno para concluir a escuta. Ogra afirmou que nenhuma guarda a detivera. Nima pediu a lasca de entrada. O altar alegou que a passagem não pertencia à mesa.

Marga procurou a terceira marca de Trima e encontrou somente um risco sob a borda da raiz: três linhas curtas, uma longa, duas curtas.

Pala reconheceu o sinal de caminho interrompido.

Nima abriu um registro de retenção. Serrilha exigiu outro nome.

— Permanência ritual.

Marga escreveu as duas expressões na mesma linha.

As perguntas dirigidas à rainha não retornaram. O corpo encarregado de levá-las também ficou dentro.

Pela manhã, a Boca da Rainha já possuía tábua, recibos, alimento e uma ausência registrada em seu primeiro dia de administração.

1/1
Menu

Fazer anotação