O Desinteresse Verdadeiro Religião das Formigas · Capítulo 36 de 36
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O Desinteresse Verdadeiro

Alguns ciclos depois, a colônia inaugurou o regime novo diante de uma lasca pequena.

Não era a constituição torta. Essa ficava perto da água, manchada no canto inferior. A lasca da cerimônia era mais antiga, guardada por Fina desde os primeiros movimentos de Nima. Trazia três cortes da primeira folha de contagem, quase apagados pelo manuseio. Antes da mesa, antes do altar móvel, antes da guarda dos restos, havia aquela marca pobre: três incisões feitas para separar passagem, alimento e espera.

Nima não chamou a lasca de origem.

Isso agradou Tova.

Serrilha também não chamou.

Isso preocupou Pala.

A lasca foi posta sobre um caroço seco de barro, perto dos três montes do novo arranjo. Alimento, água e passagem tinham conselhos separados. Dala recebia ração em horários públicos. Marga lia omissões uma vez por ciclo. Trima transitava sem assento. Orfa controlava a água com duas auxiliares. Serrilha cantava durante deslocamentos, com a proibição já escrita de parar retirada, cura ou escavação. Nima mantinha mapas abertos, sem coroa e sem repouso.

A inauguração não tinha luxo. A raiz partida ainda cheirava a madeira ferida. O depósito maior continuava perdido atrás de barro podre. Larvas salvas exigiam comida. Adultas mastigavam menos. A colônia seguia por economia, e a economia deixava toda solenidade magra.

Nace recebeu uma ordem simples antes da reunião:

— Limpe a sala lateral.

Quem falou foi Sula, já sem a antiga largura do cargo. A guarda dos restos existia em turnos menores. Nace entrava quando faltava corpo, saía quando havia varrição comum. Nunca aprendeu a inclinar a cabeça diante de resto. Nunca perguntou se um pó tinha importância depois da segunda bronca. Varria em volta das coisas apontadas e levava o que ninguém apontava.

A sala lateral ficava atrás do ponto onde a cerimônia seria montada. Ali estavam cascas velhas, fungo seco, barro caído, fibras dos turnos de emergência e pedaços de placas que perderam utilidade após a constituição. Nace entrou com a vassoura curta e uma casca larga para juntar sujeira.

Pala estava perto demais.

Tinha vindo por outro motivo. Queria ver onde Fina guardara os registros antigos. Queria garantir que a lasca dos três cortes voltaria para o arquivo depois da inauguração. A vontade de garantir já a envergonhava. Ainda assim, ficou.

Fina retirou duas placas da sala lateral, carregou para o espaço dos montes e voltou para buscar outras. No intervalo, uma lasca pequena escorregou da pilha. Caiu com o lado marcado para baixo, junto de fungo seco e poeira clara. Nace não viu cortes. Viu apenas um pedaço de casca velho demais para servir.

A vassoura curta passou.

A lasca entrou no monte de sujeira.

Pala abriu a boca sem som.

Não havia dúvida. Ao virar, por meio batimento, a casca mostrou os três cortes. A primeira folha de contagem. O fundamento material da ascensão de Nima. O objeto que poderia, se preservado, alimentar cerimônia por muitos ciclos. O pequeno início que a mesa ainda não tinha transformado em origem oficial.

Nace empurrou tudo para a casca larga: fungo seco, pó, barro, duas antenas mortas de inseto menor, a lasca.

Pala podia chamar Fina ou Tova. Podia dizer a Nace que parasse. Também podia salvar o objeto em segredo e mentir depois sobre o resgate. Todas as opções surgiram com velocidade. Cada uma preparava uma prisão futura para a lasca. Primeiro viria a vitrine. Depois surgiriam o canto e a prova, seguidos de arrependimento. Com o tempo haveria método, aniversário e disputa de interpretação.

Nace levantou a casca larga com dificuldade.

Pala deu um passo para o lado.

A passagem ficou livre.

Nace saiu carregando sujeira.

No espaço dos três montes, Nima começava a fala. Não usou altura. Não havia trono de onde falar.

— A raiz partida não terá uma boca só.

As operárias ouviram cansadas. Algumas mastigavam. Outras seguravam larvas. Dala recebia alimento no fundo, com duas alimentadoras vigiadas por Orfa. Serrilha mantinha as iniciadas em fila baixa, pronta para cantar apenas quando a circulação começasse. Marga segurava a placa das omissões. Tova observava a distância entre os montes, não a beleza da frase.

Nace atravessou atrás da reunião.

Pala acompanhou sem mover a cabeça.

O caminho até o descarte passava por uma curva úmida. Ali, antes do colapso, restos escolhidos tinham recebido guarda. Agora o chão era prático. Sujeira comum escorregava para um buraco estreito que levava a uma massa de barro, fungo e alimento estragado. Ninguém cantava ali. Ninguém media. O lugar fedia demais para metáfora durar.

Nace despejou o monte.

A lasca caiu com o lado dos cortes para cima.

Por um momento, os três riscos receberam luz fraca. Depois o fungo seco escorregou sobre eles. Uma pelota de barro caiu em seguida. A umidade começou a abrir a fibra da casca.

Pala chegou até a entrada do corredor e parou.

Mera apareceu atrás dela. Não perguntou. Viu o buraco. Viu o rosto de Pala. Entendeu o bastante.

— O que foi?

A pergunta vinha baixa, perigosa. Pala podia dividir o segredo e perder metade dele.

Ela respondeu com o único cuidado possível.

— Sujeira.

Mera olhou por mais um batimento. Depois aceitou. Aceitar sem saber foi seu gesto mais difícil em toda a história das duas.

Na sala dos montes, Nima continuava.

— Alimento decide alimento por prazo curto. Água decide água por passagem aberta. Passagem decide passagem com mapa público. Todo conselho perde função se esconder falha. Toda omissão escrita fica junto da regra que a produziu.

Marga ergueu a placa da câmara lateral três. Adultas próximas baixaram a cabeça. Serrilha iniciou um canto breve, interrompido por uma carregadora que precisava passar com duas larvas. A sacerdotisa recuou. O canto retomou andando.

Tova viu esse recuo e não sorriu. Sorriam pouco naquela fase.

Trima encostou-se à parede, livre de assento. Quando uma jovem pediu que ela falasse, Trima respondeu:

— Leiam o que ficou feio.

Marga leu de novo a omissão. A feiura trabalhou melhor que o louvor.

No descarte, a lasca inchava.

Nace raspou a borda da casca larga na parede para tirar sujeira grudada. Um pedaço de fungo caiu sobre os cortes. Ela bateu a casca duas vezes, satisfeita com o esvaziamento, e voltou à sala lateral. Passou por Pala sem notar o corpo rígido.

— Acabou lá?

A pergunta era de trabalho.

Pala respondeu:

— Ainda tem canto perto da parede.

Nace fez uma careta.

— Sempre tem.

Foi limpar.

Pala ficou com a frase na boca: você acabou de jogar fora o começo de tudo. A frase era falsa pelo excesso. Nada começara sozinho naquela lasca. Antes dela houvera fome, rota, medo, corpo, rainha, árvore, chuva, trabalho. A lasca era começo apenas para quem precisava de objeto. Talvez por isso fosse tão perigosa.

Nima encerrou a fala sem invocar fundamento.

— A colônia continua enquanto nenhuma parte puder chamar a si mesma de colônia inteira.

Houve adesão, ruído, cansaço, dúvida. Nada puro. Dala pediu mais alimento. Orfa disse que não havia ainda. Dala aceitou com raiva. Essa raiva viva valeu mais que qualquer unção.

Serrilha apresentou um canto para a árvore morta. Cabia-lhe guardar o luto; a evacuação seguia livre de sua sentença. Parte das formigas cantou. O restante continuou a cavar ou se alimentar. Pela primeira vez, a multiplicidade dispensou qualquer fingimento de harmonia.

Pala voltou ao descarte uma única vez.

Errou ao voltar, sabia disso. Ainda assim foi. Queria ver se havia salvação possível sem testemunha, um acaso que retirasse a lasca da lama. Encontrou apenas a massa comum. Os três cortes ainda existiam, já se desfazendo na umidade. Um deles tinha aberto em mancha. Outro fora coberto por barro. O terceiro restava fino, quase linha de verme.

Mera não a seguiu. Esse foi outro presente.

Pala abaixou a cabeça e deixou a casca intocada, livre de reza ou registro. Celebração alguma cabia ali. A perda ocupava o lugar comum das cascas velhas, onde apodreceria sem virar vitória contra Nima, libertação da colônia ou prova de uma teoria mais fina.

Atrás dela, a inauguração terminava. Fina recolhia placas. Marga guardava a omissão feia. Tova discutia turnos com Orfa. Serrilha corrigia o ritmo de uma fila que caminhava. Nima já estava de novo sobre um mapa, porque água nova tinha aparecido onde o mapa não previa. Dala comia pouco. Trima passava pela cela aberta sem olhar para dentro. Nace varria a sala lateral e juntava outro monte.

Nenhuma raiz respondeu.

Nenhum centro se ergueu da lama para acusar a perda.

O buraco recebeu mais sujeira. Os três cortes desapareceram sob pó comum. A colônia continuou, cheia de regras, fome, falhas publicadas, cantos interrompidos, larvas salvas e mortas sem número.

Pala saiu antes de saber se a lasca ainda existia.

Essa ignorância foi o último resto que conseguiu deixar inteiro.

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