O Corpo Exemplar Religião das Formigas · Capítulo 19 de 36
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O Corpo Exemplar

A manhã entrou pelos túneis antes da luz. Veio por antenas apressadas, por ração esquecida no caminho, por guardas que evitavam dizer o motivo da própria pressa. A pergunta da véspera continuava grudada nas paredes: quem podia ocupar aquilo que a seiva chamava de destino. Serrilha ouviu versões diferentes e respondeu com carne.

A escolhida chamava-se Tova. Servira na trincheira de água durante três estações de chuva, perdera duas irmãs no arrasto de uma lagarta e aprendera a obedecer com exatidão para sobreviver às fiscais de medida. Na noite anterior, perguntara se uma operária seca podia guardar a água de uma rainha fértil. Não reunira grupo. A pergunta pequena bastou.

Levaram Tova à Boca da Raiz antes da primeira gota. Suas patas foram presas com fibra de cogumelo seco. A boca recebeu sal úmido, pouco o bastante para mantê-la viva, bastante para ferir toda tentativa de fala. Na carapaça, gravaram: pergunta que toca a rainha toca o sal. O líquido escuro saiu em fios pequenos. As menores desviavam os olhos e voltavam a olhar.

Serrilha falou baixo. Corpo exposto faz o grito parecer desperdício. Disse que perguntas secavam ventres, que toda boca ansiosa recebia sal, que a árvore protegia a colônia contra palavras que queriam roubar nascimento. Não citou Nima. Não citou Dala. Não citou Trima. Essa ausência deixava todas dentro da ameaça.

Nima chegou depois do primeiro susto. A demora fora cálculo. Um susto aceito por alguns instantes ganha aparência de lei. Ela examinou o modo como a inscrição e as fibras fechavam a raiz. Reparou nas guardas e na água retida. Pediu a Marga que registrasse a arquitetura inteira, incluindo a vítima.

Pala tentou alcançar Tova com uma gota escondida em casca fina. Duas guardas bloquearam sua passagem. Uma observadora de Nima anotou o gesto depressa demais. Pala entendeu que todo cuidado ali já tinha dono esperando. Se desse água, a mesa nomearia a água. Se recuasse, Serrilha nomearia a covardia.

Tova olhou para ela sem súplica limpa. O olhar tinha sede, cansaço e uma recusa ainda sem forma. Pala ficou parada, odiando a impossibilidade de tocar alguém sem alimentar alguma tábua.

Marga carregava dentro da fibra as duas linhas escondidas: Dala é posição; corpo recebido por posição perde nome se a posição vence. Tova já perdia o nome diante de todas. Serrilha a chamava de exemplo. Nima a chamava de prova. Pala tentava chamá-la de Tova, e até essa tentativa entrava em registro.

Serrilha ordenou que mais sal tocasse a boca exposta. Tova soltou um som curto. Nima pediu que ninguém interrompesse. Não por piedade. O som servia. A crueldade da raiz, quando medida publicamente, criava jurisdição para a mesa.

A frase de Tova saiu quebrada:

— Meu nome não cabe nisso.

Rula repetiu sem voz, para guardar. Vessa chorou. Marga escreveu com autoria e condição: Tova, boca salgada, corpo exposto, nome recusando a inscrição. Pala sentiu o horror da precisão. A frase protegia Tova contra Serrilha e abria mais uma gaveta para Nima.

A administradora falou então para as fileiras. Disse que uma árvore tão alta precisara de sal, fibra, guarda e corpo comum para responder a uma pergunta de túnel. Disse que divindade que exige operária amarrada diante de menores já descera ao nível da administração. A palavra correu pela galeria com gosto seco. Serrilha tentou interromper, e a interrupção confirmou o chão novo.

Nima não libertou Tova. Pala viu esse ponto com clareza. A mesa podia retirar o sal e ganhar amor rápido. Preferiu manter o corpo onde estava, cercado por observadoras, convertido em prova. A diferença entre raiz e mesa deixava de estar na dor e passava ao uso da dor.

Marga entregou a Pala uma lasca mínima com a segunda linha abreviada. Corpo recebido por posição perde nome se a posição vence. Pala leu e olhou para Tova. A advertência chegava tarde para impedir a exposição, cedo para impedir que exposições futuras ganhassem nome bonito demais. Nima viu a troca e não pediu a lasca. Guardou a existência dela como quem guarda uma rota ainda sem mapa.

Serrilha mandou retirar Tova para a câmara do sal. Nima respondeu que todo corpo usado em questão pública passaria a observação comum. Criou a regra diante de tantas antenas que a regra já nasceu com testemunhas. Serrilha aceitou uma composição de cuidado: uma guarda da raiz, uma observadora de casca e uma menor escolhida por Vessa acompanhariam Tova até a água limpa.

Vessa escolheu Aru. A pequena quase caiu ao ouvir o próprio nome. Tocou Tova com delicadeza, e esse toque deu à cena uma tristeza sem canto.

Quando retiraram o sal, Tova pediu barro.

— Quero meu nome sujo.

As primeiras fileiras não entenderam. Marga entendeu rápido demais. Nome limpo servia a quem lavava. Nome sujo carregava resto, erro, irmã perdida, medo, raiva, lama de túnel baixo. Tova pedia para não virar mártir liso, exemplo perfeito, prova pronta. Pala repetiu a frase em voz alta. Nima mandou registrar. Serrilha mandou calar.

Entre as duas ordens, a frase passou para muitas bocas.

Na água limpa, Aru trouxe barro misturado a fungo morto e pó de semente. Tova encostou a lama na inscrição ferida. Disse os nomes das irmãs esmagadas pela lagarta: Nera e Ossi. Temia que a árvore as purificasse ou que a mesa as cadastrasse. Queria mantê-las na própria boca, junto da sujeira.

Nima criou o Registro das Nomeações Contaminadas antes do fim da luz. A palavra oferecia abrigo contra a limpeza de Serrilha. Também criava índice, testemunha, cópia, autorização de uso. Pala colocou um pedaço do barro sobre a mesa e disse que aquilo pertencia ao pedido, não ao registro. Nima mandou registrar a recusa de propriedade comum por Pala.

Tova leu a primeira página do registro, com ajuda de Aru, e cuspiu barro sobre o canto limpo da casca.

— Talvez seja impossível sujar uma coisa feita para recolher sujeira alheia.

Nima não mandou limpar. Serrilha voltou à raiz prometendo Câmara da Pureza. Pala levou Tova para perto da água, carregando a lasca de Marga escondida. Vessa repetia Nera, Aru, Ossi, Tova, errando a ordem de propósito. Marga ficou diante da página nova e compreendeu que acabara de ajudar a formar uma coroa feita de manchas.

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