A Cela Sem Nome Religião das Formigas · Capítulo 11 de 36
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A Cela Sem Nome

Serrilha ofereceu à mesa a abertura ritual de uma cela. Chamou a visita de prova da custódia.

— A mesa poderá fazer uma pergunta — explicou. — O corpo responderá se a raiz permitir.

Nima aceitou com uma condição:

— A pergunta será nossa.

A galeria do sal fora lavada antes da chegada. Lugares comuns guardavam cheiro de uso; aquele corredor cheirava a intenção. Nima desceu com Marga, Pala e Trima. Ogra esperava diante de três entradas cobertas por fibras.

Serrilha escolheu a do meio.

Dentro havia uma câmara baixa e um corpo dobrado. A criatura tinha asas roídas, marcas de macho sacrificial e ventre gasto de operária velha. A mistura destruía classificações simples.

Não era Sile.

O ar guardava cheiro de sal, fungo e ferida fechada. Uma tigela ocupava o canto. Havia alimento recente no fundo, quantidade maior que a necessária para aquele corpo.

Marga encontrou pó de madeira sob a tigela.

— Alguém escreve aqui.

O corpo recolheu as patas.

— Quem? — perguntou Nima.

Serrilha lembrou a regra de uma pergunta.

Pala se ajoelhou junto da entrada.

— A pergunta já foi feita antes de abrirem a fibra.

— Então a mesa desperdiçou sua dádiva — respondeu Serrilha.

Ogra retirou o pó com a ponta da lança e o colocou numa folha. Os riscos estavam quebrados demais para formar frase. Nima reconheceu apenas um corte semelhante à marca usada por Sile para separar nome e turno.

Marga examinou a pata dianteira.

— A escriba tinha ferida na esquerda. Esta cicatriz fica na direita.

Serrilha tocou a fibra da entrada.

— A dádiva prometeu um corpo retido. A ansiedade inventou o nome.

Nima se aproximou da criatura.

— Quantas bocas comem por você?

O corpo abriu os olhos.

— Três.

— Quais?

Serrilha ergueu a antena.

— Uma pergunta.

A criatura riu com dificuldade.

— Uma leva comida. Uma tira. Uma apaga.

Trima perdeu a imobilidade por um instante. Reconhecia a frase ou o procedimento.

Na saída, Nima criou três categorias: manutenção, extração e apagamento. As palavras davam ao corpo uma função dentro do tribunal e obrigavam Trima a permanecer como testemunha de custódia.

— Quero voltar ao meu turno — disse a guarda.

— Seu nome entrou na resposta.

— Meu nome entrou porque vocês precisavam de uma boca entre a cela e a mesa.

— Você trouxe as cascas.

— Porque Serrilha precisava que eu trouxesse.

Marga interrompeu:

— Então as mensagens eram dela?

— Algumas.

— Quais?

Trima encostou as antenas na parede.

— A pergunta mantém meu corpo aqui. A resposta coloca meu corpo lá dentro.

Nima registrou Trima como canal coagido. O cargo dava proteção contra descarte imediato e a prendia ao circuito.

Trima carregava alimento para celas havia onze ciclos. Antes disso, servira na entrada norte, onde perdera uma irmã durante queda de terra. Serrilha a transferira depois que perguntou por que os nomes das soterradas não entraram no registro.

— Quantas celas existem? — perguntou Marga.

— Três neste corredor. Outras recebem outro nome.

— E quantos corpos?

— Depende da lista.

— Corpo não depende de lista.

— Para quem leva comida, depende. Uma cesta pode alimentar duas. Duas cestas podem alimentar a mesma. Uma cela vazia pode continuar recebendo porções para manter o turno de uma guarda.

Nima entendeu que a custódia também distribuía empregos, alimento e silêncio. Abrir todas as portas desmontaria mais do que prisão.

De volta ao tribunal, procuraram o nome de Sile nas listas oficiais. O espaço onde estivera sua marca fora preenchido com uma raspagem lisa. Rívia, escriba do templo, afirmou que nenhuma Sile servira naquele turno.

Nima pediu a lista da estação anterior. O espaço correspondente fora cortado da madeira. Serrilha trouxera uma peça mutilada para provar ausência.

— Uma escriba sem registro não pode estar desaparecida — declarou Rívia.

Marga colocou no chão uma cópia assinada por Sile.

— Então quem escreveu?

— Uma imitadora.

— Quem feriu a pata?

— Muitas escribas se ferem.

Pala aproximou a cicatriz da própria boca da lasca.

— Quantas feridas iguais são necessárias para uma formiga existir?

Marga trouxe as cópias clandestinas. O nome existia em dezenas.

Serrilha declarou:

— Cópias sem origem multiplicam criaturas que nunca viveram.

Pala colocou no chão o pó que Sile escondera na câmara de fungos.

— E feridas sem nome? Também nunca doeram?

Ogra confiscou o pó. Nima pediu inscrição imediata do gesto. Serrilha autorizou que o material fosse guardado sob custódia sagrada.

Outra prova passava para o altar.

Durante a noite, Trima levou uma terceira casca. Não trazia símbolo algum. Apenas marcas de mordida na borda.

— Veio da mesma cesta?

— Veio do caminho que a mesa mandou contar.

— O corpo está vivo?

— A sobra de comida voltou.

— Isso prova uma boca.

— Prova que alguém mastigou.

Nima percebeu que jamais alcançaria Sile por contabilidade se cada etapa pudesse ser preenchida por outra formiga.

Marga quis publicar a incerteza. Pala pediu que encerrassem o uso do nome até encontrar o corpo.

— Sem nome, Serrilha vence — disse Nima.

— Com o nome, você continua alimentando a mesa — respondeu Pala.

— O que propõe?

— Uma boca falando sem mesa, altar ou categoria.

Nima olhou para Trima.

— Isso existe?

A guarda respondeu:

— Dentro da cela, talvez. Do lado de fora, sempre há alguém cobrando a fala.

Nima registrou o desaparecimento de Sile, a raspagem oficial, as mensagens contraditórias e a ausência de corpo comprovado. Depois fechou a gaveta.

Marga manteve uma cópia fora dela.

— Se o arquivo admite que não sabe, por que esconder?

— Porque Serrilha usará a dúvida para apagar o nome.

— E você usará o nome para sustentar busca que talvez Sile rejeite.

Pala tocou a gaveta.

— A pergunta continua: quando alguma boca poderá falar sem mesa ou altar?

Nima não respondeu. A incapacidade de responder ficou fora do registro.

O destino da escriba permaneceu sem conclusão. Pela primeira vez, o arquivo admitia que não sabia.

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