A Cela Sem Nome
Serrilha ofereceu à mesa a abertura ritual de uma cela. Chamou a visita de prova da custódia.
— A mesa poderá fazer uma pergunta — explicou. — O corpo responderá se a raiz permitir.
Nima aceitou com uma condição:
— A pergunta será nossa.
A galeria do sal fora lavada antes da chegada. Lugares comuns guardavam cheiro de uso; aquele corredor cheirava a intenção. Nima desceu com Marga, Pala e Trima. Ogra esperava diante de três entradas cobertas por fibras.
Serrilha escolheu a do meio.
Dentro havia uma câmara baixa e um corpo dobrado. A criatura tinha asas roídas, marcas de macho sacrificial e ventre gasto de operária velha. A mistura destruía classificações simples.
Não era Sile.
O ar guardava cheiro de sal, fungo e ferida fechada. Uma tigela ocupava o canto. Havia alimento recente no fundo, quantidade maior que a necessária para aquele corpo.
Marga encontrou pó de madeira sob a tigela.
— Alguém escreve aqui.
O corpo recolheu as patas.
— Quem? — perguntou Nima.
Serrilha lembrou a regra de uma pergunta.
Pala se ajoelhou junto da entrada.
— A pergunta já foi feita antes de abrirem a fibra.
— Então a mesa desperdiçou sua dádiva — respondeu Serrilha.
Ogra retirou o pó com a ponta da lança e o colocou numa folha. Os riscos estavam quebrados demais para formar frase. Nima reconheceu apenas um corte semelhante à marca usada por Sile para separar nome e turno.
Marga examinou a pata dianteira.
— A escriba tinha ferida na esquerda. Esta cicatriz fica na direita.
Serrilha tocou a fibra da entrada.
— A dádiva prometeu um corpo retido. A ansiedade inventou o nome.
Nima se aproximou da criatura.
— Quantas bocas comem por você?
O corpo abriu os olhos.
— Três.
— Quais?
Serrilha ergueu a antena.
— Uma pergunta.
A criatura riu com dificuldade.
— Uma leva comida. Uma tira. Uma apaga.
Trima perdeu a imobilidade por um instante. Reconhecia a frase ou o procedimento.
Na saída, Nima criou três categorias: manutenção, extração e apagamento. As palavras davam ao corpo uma função dentro do tribunal e obrigavam Trima a permanecer como testemunha de custódia.
— Quero voltar ao meu turno — disse a guarda.
— Seu nome entrou na resposta.
— Meu nome entrou porque vocês precisavam de uma boca entre a cela e a mesa.
— Você trouxe as cascas.
— Porque Serrilha precisava que eu trouxesse.
Marga interrompeu:
— Então as mensagens eram dela?
— Algumas.
— Quais?
Trima encostou as antenas na parede.
— A pergunta mantém meu corpo aqui. A resposta coloca meu corpo lá dentro.
Nima registrou Trima como canal coagido. O cargo dava proteção contra descarte imediato e a prendia ao circuito.
Trima carregava alimento para celas havia onze ciclos. Antes disso, servira na entrada norte, onde perdera uma irmã durante queda de terra. Serrilha a transferira depois que perguntou por que os nomes das soterradas não entraram no registro.
— Quantas celas existem? — perguntou Marga.
— Três neste corredor. Outras recebem outro nome.
— E quantos corpos?
— Depende da lista.
— Corpo não depende de lista.
— Para quem leva comida, depende. Uma cesta pode alimentar duas. Duas cestas podem alimentar a mesma. Uma cela vazia pode continuar recebendo porções para manter o turno de uma guarda.
Nima entendeu que a custódia também distribuía empregos, alimento e silêncio. Abrir todas as portas desmontaria mais do que prisão.
De volta ao tribunal, procuraram o nome de Sile nas listas oficiais. O espaço onde estivera sua marca fora preenchido com uma raspagem lisa. Rívia, escriba do templo, afirmou que nenhuma Sile servira naquele turno.
Nima pediu a lista da estação anterior. O espaço correspondente fora cortado da madeira. Serrilha trouxera uma peça mutilada para provar ausência.
— Uma escriba sem registro não pode estar desaparecida — declarou Rívia.
Marga colocou no chão uma cópia assinada por Sile.
— Então quem escreveu?
— Uma imitadora.
— Quem feriu a pata?
— Muitas escribas se ferem.
Pala aproximou a cicatriz da própria boca da lasca.
— Quantas feridas iguais são necessárias para uma formiga existir?
Marga trouxe as cópias clandestinas. O nome existia em dezenas.
Serrilha declarou:
— Cópias sem origem multiplicam criaturas que nunca viveram.
Pala colocou no chão o pó que Sile escondera na câmara de fungos.
— E feridas sem nome? Também nunca doeram?
Ogra confiscou o pó. Nima pediu inscrição imediata do gesto. Serrilha autorizou que o material fosse guardado sob custódia sagrada.
Outra prova passava para o altar.
Durante a noite, Trima levou uma terceira casca. Não trazia símbolo algum. Apenas marcas de mordida na borda.
— Veio da mesma cesta?
— Veio do caminho que a mesa mandou contar.
— O corpo está vivo?
— A sobra de comida voltou.
— Isso prova uma boca.
— Prova que alguém mastigou.
Nima percebeu que jamais alcançaria Sile por contabilidade se cada etapa pudesse ser preenchida por outra formiga.
Marga quis publicar a incerteza. Pala pediu que encerrassem o uso do nome até encontrar o corpo.
— Sem nome, Serrilha vence — disse Nima.
— Com o nome, você continua alimentando a mesa — respondeu Pala.
— O que propõe?
— Uma boca falando sem mesa, altar ou categoria.
Nima olhou para Trima.
— Isso existe?
A guarda respondeu:
— Dentro da cela, talvez. Do lado de fora, sempre há alguém cobrando a fala.
Nima registrou o desaparecimento de Sile, a raspagem oficial, as mensagens contraditórias e a ausência de corpo comprovado. Depois fechou a gaveta.
Marga manteve uma cópia fora dela.
— Se o arquivo admite que não sabe, por que esconder?
— Porque Serrilha usará a dúvida para apagar o nome.
— E você usará o nome para sustentar busca que talvez Sile rejeite.
Pala tocou a gaveta.
— A pergunta continua: quando alguma boca poderá falar sem mesa ou altar?
Nima não respondeu. A incapacidade de responder ficou fora do registro.
O destino da escriba permaneceu sem conclusão. Pela primeira vez, o arquivo admitia que não sabia.