O Mapa das Bocas Religião das Formigas · Capítulo 4 de 36
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O Mapa das Bocas

Nima passou três noites desenhando círculos no barro.

O primeiro recebeu o nome de Luma e alcançava as câmaras das mães. Rena ligava depósitos, nutridoras e porções desviadas. Marga abria portas e conhecia horários de ronda. Sile guardava versões que a madeira oficial recusava. Vespa-Morta ficava fora do desenho, próxima o bastante para tocar todas as linhas.

Nima não procurava amigas. Procurava passagens.

Na quarta madrugada, Luma apareceu no túnel de drenagem com a lasca de Taro presa ao corpo.

— Duas mães querem ouvir o nome dele.

— Traga as duas.

— Elas querem ouvir. Não querem jurar dívida.

Nima apagou uma linha do mapa.

— Serrilha já usa Taro para cobrar serviço.

— E você usa para cobrar presença.

— Presença mantém o nome vivo.

Luma retirou a lasca do pescoço e a colocou no chão.

— Era meu filho antes de virar argumento.

Nima olhou a madeira. Sile fizera duas cópias da inscrição clandestina. A terceira existia em pó, escondida entre fungos. Luma conhecia apenas uma.

— Se você sair agora, fica com a lasca oficial. As outras cópias continuam comigo.

A mãe levou as antenas para trás.

— Está tomando o nome dele.

— Estou dizendo onde o nome sobrevive.

Luma demorou a recolher a peça. Quando o fez, a raiva já havia substituído o luto em seus movimentos.

— Trago as duas mães. Depois quero todas as cópias.

— Depois decidimos.

Ela saiu sem se despedir.

Nima acrescentou uma marca ao lado de Luma. A ameaça funcionara. Produzira rota, obediência e ressentimento no mesmo corpo. Era o tipo de eficiência que admirava em Serrilha.

O primeiro teste da rede veio com Bera, operária de carga fina. Seu irmão morrera numa subida antiga. Depois que ela reclamou da redução das compensações, Serrilha cortou metade de sua comida por cinco turnos.

Luma trouxe Bera até uma câmara vazia. Rena deixou um fragmento de pasta sobre uma folha. Nima desenhou a raiz partida ao lado da porção.

Bera olhou primeiro para a comida.

— Posso pegar?

— Pode.

Ela comeu metade antes de perguntar sobre o sinal.

— O corte extra pertence às árvores?

Luma respondeu:

— Pertence às respostas que não vieram.

Nima colocou outra migalha na folha.

— Famílias que entregaram corpos guardam crédito diante da raiz.

Crédito era palavra de depósito. Bera conhecia peso, contagem e falta. A frase chegou a ela pelo trabalho, livre do perfume do altar.

— E quem paga?

— A colônia.

— Serrilha?

— Quem controla porções, portas e memória.

Bera terminou a comida.

— Então vocês ainda não podem pagar nada.

Nima gostou menos da resposta do que demonstrou.

Nos turnos seguintes, o mapa ganhou linhas. Bera alcançava carregadoras punidas. Rena encontrou duas nutridoras capazes de alterar pequenas contagens. Marga indicou quais guardas odiavam Ogra, a capitã encarregada de apagar marcas clandestinas. Sile passou a registrar nomes em pedaços separados, para que uma apreensão jamais revelasse a rede inteira.

Cada passagem exigia uma moeda. Comida para Bera. Proteção para Rena. Silêncio sobre a lança para Marga. Madeira para Sile. Duração para Luma.

Sile exigiu uma câmara onde pudesse voltar a escrever sem curvar a pata ferida. Nima encontrou espaço atrás do depósito de cascas condenadas, abafado pelo calor do fungo ácido. Marga retirou dali duas vigias durante uma troca de turno. Rena levou madeira em cestos de comida estragada.

Na primeira noite, Sile dispôs no chão os fragmentos salvos do poço seco. Nenhuma frase estava completa. Havia verbos sem sujeito, nomes separados de suas mortes, porções sem família indicada.

— Isto é arquivo? — perguntou Marga.

— É o que sobrou dele.

— Alguém consegue provar alguma coisa com esse pó?

Sile tocou a pata ferida.

— Prova depende de quem aceita ler. O pó prova que alguém tentou apagar.

Luma encontrou o nome de Taro em três pedaços diferentes. Reuniu-os e tentou levar a composição.

Nima bloqueou a saída.

— Uma cópia fica aqui.

— Você prometeu todas.

— Prometi decidir.

— Ele não pertence ao seu mapa.

— Se a guarda encontrar a peça com você, o nome desaparece junto.

Luma deixou um fragmento no chão.

— Um dia você vai dizer que tirou de mim para proteger.

Nima recolheu a madeira sem responder. Serrilha usara a mesma justificativa ao confiscar as primeiras lascas de Sile.

Dara chegou sem moeda.

Era uma operária de escavação, magra e coberta de argila clara. Rena a encontrara tentando retirar fungo do descarte. Havia três turnos que não recebia porção completa.

— Toque a fome — disse Nima.

Dara tocou o ventre.

— Toque o sinal.

Ela encostou a pata na raiz partida.

— Agora diga: toda asa abre cobrança.

Dara afastou a folha de comida.

— Não entreguei asa.

— Toda fome abre cobrança.

— Então diga isso.

Nima percebeu os olhos de Luma sobre ela.

— Diga.

Dara repetiu a frase e recebeu a porção. Comeu com pressa, sem gratidão.

— Amanhã tem mais? — perguntou.

— Se trouxer outra operária.

— E se eu não trouxer?

— Procure Serrilha.

Dara limpou a boca.

— A comida de vocês também vem com hino.

Saiu levando a folha vazia.

Vespa-Morta assistira da entrada.

— Você já tem cerimônia.

— Tenho método.

— Fome tocada, sinal tocado, frase repetida, alimento entregue. Quando Serrilha faz isso, você chama de religião.

Nima desfez com a pata o círculo de Dara.

— Serrilha pede gratidão.

— Você pede recrutamento.

— Alguém precisa alimentar a rede.

— Alguém sempre precisa alimentar o altar.

Ogra começou as buscas naquela noite. Percorreu as câmaras com duas guardas, examinou patas e mandou raspar toda parede que trouxesse um corte inclinado. Perto do dormitório das nutridoras, encontrou a raiz partida e ordenou que retirassem a camada escura até surgir argila úmida.

Marga acompanhou o trabalho.

Nima viu de longe quando a capitã encostou a lança no flanco de uma nutridora idosa.

— Quem desenhou?

— Não sei.

— Quem viu?

— Muitas.

Ogra bateu a ponta da arma na parede.

— Muitas não é nome.

A nutridora perdeu a porção do turno. A argila raspada ficou vermelha sob a luz dos fungos.

Ogra levou quatro formigas para a câmara de espera. Entre elas estava Bera. Nima pediu que Marga a retirasse antes do interrogatório.

— Não posso abrir a porta sem ordem.

— Pode trocar a guarda.

— A troca deixa registro.

— Então altere o registro.

Marga recusou. Nima enviou Rena à mãe de uma das guardas com uma porção e uma notícia falsa sobre larvas doentes. A soldada abandonou o posto por algumas respirações. Bera saiu pela passagem de água.

Quando alcançou a câmara clandestina, trazia um corte no dorso.

— Ogra perguntou quem me alimentou.

— O que respondeu?

— Que roubei.

— Ela acreditou?

— Bateu até decidir que sim.

Bera rejeitou a pasta oferecida por Rena.

— Não quero comida hoje. Quero o nome da formiga que me tirou de lá.

Nima indicou Marga.

A guarda não corrigiu. A mentira pequena transformou recusa em dívida. Bera tocou a antena de Marga e prometeu retribuir. Nima viu outra linha aparecer sem precisar desenhá-la.

Sile registrou Ogra numa lasca clandestina como Dente da Obrigação. O nome circulou depressa. Guardas já a odiavam por jornadas extras; mães a conheciam das revistas; nutridoras temiam sua presença nos depósitos. Em dois dias, Ogra deixou de ser apenas capitã. Virou figura simples, portadora de toda violência que a rede desejava reunir num corpo.

Marga encontrou Nima perto da entrada oeste.

— Retire esse nome.

— Não fui eu que bati nas paredes.

— Ogra é cruel. Continua sendo formiga.

— Taro também era. Serrilha fez dele desprendimento.

— Então sua resposta vai copiar tudo?

— Vai usar o que funciona.

Marga ergueu a lança.

— Um dia você vai descobrir que era isso que funcionava em Serrilha.

Nima tocou a lasca escondida sob a couraça da guarda.

— Um dia você pode explicar por que Taro caiu.

Marga baixou a arma.

— Pare de usar isso.

— Pare de me dar motivo.

A guarda se afastou. Nima havia vencido pela segunda vez com a mesma culpa. A repetição lhe trouxe menos prazer.

Madre Serrilha respondeu às marcas reduzindo as porções das famílias de alados. Chamou a medida de recolhimento purificador. As mães provariam gratidão sem açúcar e memória sem recompensa.

Na segunda noite, três delas procuraram Luma.

Na terceira, Dara voltou trazendo duas escavadoras.

Nima redesenhou o mapa. Já não conseguia separar quem vinha por luto, fome, medo ou desejo de importância. As linhas se cruzavam e formavam uma pequena colônia dentro da colônia.

Luma observou o desenho.

— Onde está Taro?

Nima apontou o círculo das mães.

— Aí.

— Esse círculo diz Luma.

Nima não respondeu.

Depois que todas saíram, permaneceu diante das bocas traçadas. Tinha rotas, testemunhas, arquivo, alimento escasso e uma capitã transformada em inimiga. Ainda dependia de reuniões escondidas e porções pequenas.

Faltava um acontecimento que pudesse ser visto por quem nunca entraria naquela câmara.

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