A Rainha de Reserva
A água limpa ficava antes do sal. Esse antes mudou a marcha das guardiãs. Nima enviou Rula, Fira e Vessa à dobra indicada para Luma, com Pala vigiando a borda sem aceitar posto. Marga permaneceu na Boca da Raiz com Sere, Dala e a frase escondida sobre o desejo do arquivo. Cada separação distribuía poder em pedaços menores.
Na dobra dos fungos úmidos, Rula encontrou uma ração marcada por duas mordidas laterais. Disse que Luma usava aquele sinal para avisar perigo sem perder comida. Fira pediu cautela. Vessa tocou a ração e reconheceu cheiro de corpo vivo. Nima mandou dividir a prova em três: vida possível, isca possível, alimento recusado. Rula recebeu uma categoria no lugar da irmã. O rosto dela endureceu.
Pala seguiu, sem testemunha, um nó de fibra igual ao que prendera a cadeira de Trima. Encontrou uma alimentadora pequena lavando as patas numa gota clara. A criatura conhecia seu nome.
— Trima tem voz. Sere tem olhos. Luma tem água. Dala tem função.
Pala perguntou onde Trima estava. A alimentadora respondeu que lugar sem licença virava vazio antes da chegada de quem procura. Nima apareceu com Fira e Vessa antes que Pala avançasse. A alimentadora disse chamar-se Orfa. Nomes dados pela câmara alta carregavam utilidade, explicou. Quem alimenta corpos sem família recebe nome de falta para lembrar a função.
Nima ofereceu proteção observada. Orfa perguntou quanto tempo uma proteção levava para virar jaula. Pala quase sorriu, e Orfa recuou também dela.
— Fúria de resgate quebra corpo que pretende tirar.
Vessa pediu uma resposta menor: se a pequena sem nome passara por aquelas patas. Orfa chorou sem som. A falta de resposta valeu mais que certeza. Quando guardas de sal apareceram no fundo do corredor, Orfa recusou sair. Disse que alimentadoras presas por dentro carregavam rotas no corpo, e corpo arrancado sem preparo fechava caminhos de outros presos. Nima aceitou a recusa depressa demais. Pala viu o cálculo. Orfa ficaria como passagem futura, ainda dentro da sala que a consumia.
Na Boca da Raiz, Marga comparou as marcas de Sere e Dala. Sere apontava para uma câmara lateral de nomes raspados. Dala trazia água diferente, entre raiz e ventre. A guarda menor encontrou registros antigos de larvas reservadas antes da primeira função: ração inicial, água de rainha, lote sem nome público. Marga ficou parada diante da lasca. Dala ocupava a reserva de linhagem.
Revelar tudo a Nima daria à mesa uma ferramenta nova. Esconder tudo deixaria Serrilha dona da sucessão. Marga revelou apenas metade: Dala provava a existência de uma reposição guardada atrás do sagrado. A escolha eterna de um corpo único perdia sustentação.
Nima ouviu sem demonstrar fome. Esse controle assustou mais que entusiasmo. Disse que a mesa não atacaria a rainha; atacaria a impossibilidade de perguntar sobre a rainha. A diferença cabia em uma fresta e abria uma sala inteira. Operárias religiosas poderiam escutar sem sentir o chão desaparecer. Guardiãs poderiam repetir sem se chamar traidoras. Serrilha teria dificuldade de punir pergunta sem confessar medo.
Rívia chegou com sentença: qualquer boca que pronunciasse Dala junto de rainha receberia sal de esterilidade. A ameaça tocava ventres, larvas, alimentadoras, mães sem cria, pequenas sem nome. Serrilha aproximava a divindade do corpo quando precisava defender a altura. Marga escreveu a ameaça inteira. A violência sem perfume trabalhava pela mesa com eficiência perigosa.
Na mesma tarde, uma gota apareceu junto às Pedras Sem Rosto dentro de casca fina, marcada por Orfa. Tinha cheiro de sala reservada. Vessa quase caiu. Rula perguntou por Luma. A gota não respondia a irmã; respondia à posição. Isso a tornou insuportável.
Pala voltou da dobra com uma fala parcial de Trima: quem veio me buscar veio buscar o que vou dizer. Não entregou o final. Nima percebeu o corte e pediu registro como fala mutilada por guardiã da voz. Pala aceitou o dano. Melhor ser acusada pelo corte que entregar o corpo inteiro da fala. Marga escreveu, e em fibra fechada acrescentou: toda fala cortada ainda sangra direção.
Serrilha reagiu selando a raiz principal com sal úmido, resina clara e guardas sem brasão. Orfa desapareceu antes da troca de guardas. O fechamento não veio com anúncio. A falta de anúncio funcionou como decreto. Operárias foram desviadas para túneis baixos, levando ração fria e medo quente.
Nima colocou as gotas no centro da Boca da Raiz e convocou audiência restrita. Marga apontou que audiência pedia público, e restrição pedia porta. Nima respondeu que certas verdades precisavam chegar ao povo com ordem suficiente para não virar seiva nova. Pala disse que silêncio de administradora também era selo.
Marga leu só o necessário: Dala era reserva de linhagem. Reserva de linhagem desmentia a rainha única. Não leu a linha que mais queimava sua pata: Dala é posição. Posição pode receber corpo. Guardou essa gramática porque, entregue limpa a Nima, ela poderia fundar novo trono sobre a mesma cadeira.
A pergunta saiu para os corredores antes da água seguinte: quem pode ocupar aquilo que a seiva chama de destino. Nima começou pelos setores de produção com uma versão menor: se a rainha pode ser perguntada, quem perde água. As operárias entendiam perda antes de sucessão. Uma velha disse que perderia descanso. Uma guarda disse que perderia mentira útil. Vessa colocou a casca da pequena sem nome no chão e deixou que a ausência respondesse.
Serrilha espalhou sal de esterilidade perto dos ninhos. Nima mandou contar cada ponto. Pala caminhou atrás das guardiãs corrigindo a pergunta:
— Quem está preso atrás da pergunta.
Queria devolver Trima ao corpo da história. Nima queria manter Trima no centro sem corpo visível, porque centro ausente se move melhor entre setores. Marga viu as três campanhas: pergunta, correção, ameaça. O arquivo inchou com pedaços de todas.
No Círculo da Pergunta, uma jovem operária perguntou se muitas bocas podiam ocupar a função ao mesmo tempo. Nima demorou. Dizer sim abriria guerra contra a rainha única. Dizer não devolveria Dala à cadeira antiga.
— Uma função pode ser disputada antes de ser ocupada.
A frase manteve todos vivos por mais uma luz e criou fome para a seguinte. Marga abriu a fibra apenas para si e escreveu a segunda linha: corpo recebido por posição perde nome se a posição vence.
Na última vigília, ela colocou as duas linhas sob a gota de Orfa. Serrilha mantinha a raiz selada. Orfa sumira. Luma esperava perto da água. Trima lia atrás da membrana. Dala, sem corpo público, ocupava mais espaço que qualquer corpo autorizado. A Parte da Ausência terminava sem libertação. Terminava com algo pior para a rainha antiga: a colônia aprendera que destino também podia ser cargo.