Universo da obra
Universo da obra
QuBRiDA FERNANDA. Quando parti do Mio de Janeiro para o degredo da roça, ainda não tinhas regressado da Europa, e por isso ignoras o que de mais intimamente se passou commigo e as minhas quatro filhas durante a tua ausência. Recebendo agora o teu telegrama não posso sufocar o desejo de comunicar-te tudo. Nos seis mezes que estiveste longe a minha existência mudou completamente. A morte de meu marido revelou-me uma verdade que eu estava longe de imaginar — a de sermos pobres. Nem sei como ele se podia mover no meio da complicação dos negócios em que se enredava. Logo depois da sua morte apareceramnos credores, cuja existência eu ignorava e tive de chamar um advogado, que me aconselhou a vender a minha casa de Botafogo e as chácaras da Tijuca para contentar esses senhores e partir com as meninas para estas terras de serra a cima, onde nos enterramos até ao nariz na mais estúpida, na mais fastidiosa insipidez. A única propriedade que nos ficou livre, para refugio da nossa dignidade, foi esta melancólica fazenda do Remanso, ha muito tempo abandonada por meu marido, que aqui vinha rarissimas vezes. Não calculas o horror desta solidão e destes povos dos arredores. As terras do Remanso, que é, como te deves lembrar, o nome da fazenda, está agora adicionado o sitio da Tapera, herança de meu pai, que por sua vez também. o tinha de ha muito abandonado. Aqui vivemos sem humilhação, é verdade, mas com uma enorme tristeza e curtos haveres. Minhas filhas, coitadas, passam o dia bocejando e desaprendendo o que estudaram no colégio. De que lhes valerão agora as prendas com que se ornaram para brilhar na sociedade? O imenso casarão em que moramos tem ares de convento velho no meio de um terreiro árido e melancólico. Durante o dia, o sol castiga a terra nua num grande circulo ao redor das nossas qaatro paredes silenciosas; á CORREIO I)A ROÇA noite coaxam os sapos na solidão como a única orquestra para a satisfação dos nossos gostos musicais. E' um horror. Não sabemos em que empregar as horas, que se arrastam lentas e dolorosas. Surpreendemo-nos muitas vezes a dizer : — A estas horas, se estivéssemos no Rio, estaríamos passeando na Avenida; ou entrando em tal ou tal teatro ou receção... E aqui que fazemos? Nada! Não fazer nada é a melhor maneira de se sentir a gente envelhecer, morrer! De mais a mais faltam-nos os meios, mesmo aqui, para certos confortos a que o trabalho ativo de meu marido nos tinha habituado. Não sei onde isto irá parar, mas sinto-me num despenhadeiro ! Escrever-te-ei depois com mais calma. Tua MARIA. P. S. Inculca-nos um bom jornal de modas parisienses, que terá pelo menos o dom de distrair as pequenas, que se entreterão seguindo de longe elegâncias que não podem acompanhar de perto! MARIA.
Leia gratuitamente Correio da Roça, de Júlia Lopes de Almeida, obra brasileira em domínio público publicada em 1913. Texto epistolar preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 54 capítulos-cartas, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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