Melancolia
Quanta gente talvez no mundo existe Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa.
Raimundo Correia
Pelos males e pelas desventuras,
Com que o destino nos foi tão cruel, Procuramos em nossas mútuas juras, Atenuar o travor do nosso fel.
Antefruindo, além, horas futuras
No calmo gozo de um ideal vergel,
Esquecemos passadas amarguras,
O beijo impuro ou a carícia infiel.
Mas por sofrer ainda os vis apodos Dos que me não conhecem o sofrer,
Vivo a fingir audácias e denodos.
Pensam, ao ver-me o alegre parecer, Que tenho o riso que ambicionam todos, Em vez do pranto que não quero ter.
PINHEIRO MORTO
Ao Paraná
Nasceste onde eu nasci. Creio que ao mesmo dia Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!
Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia De seres o maior do verdejante grêmio.
Nunca temeste o raio e eu como que te ouvia Murmurar, ao guaiar da fronde, ao vento: - "Teme-o Somente o fraco arbusto! A rija ventania, Teme-a somente o errante e desnudado boêmio!
Meu vulto senhorial queda-se firme. Embala-mo O tufão e hei de tê-lo eternamente ereto!
Resisto ao furacão quando a aura abate o cálamo!"
Ouve-me agora a mim que, em vez de ti, vegeto: Já que em ti não pesei, entre os fulcros de um tálamo, Faze-te abrigo meu nas entraves de um teto!
VITÓRIA-RÉGIA
(No álbum de Rafaelina de Barrow)
À tona ingrata e hostil de tétrica palude, Abre, gloriosamente, a impoluta corola E esplende, no vigor da vida e da saúde, Na região que um mortal sopro de peste assola.
Grande como a bondade e alva como a virtude, Na miséria de em torno ela é a radiante esmola De uma alma vegetal que em toda plenitude Do mal que a quer poluir, mais se apura e acrisola.
Bendito resplendor da flora brasileira!
Ela, Senhora, eu sei: dessa voss'alma egrégia, E o símbolo perfeito, é a expressão verdadeira...
Fê-la rainha a ciência e, ao vê-la, a musa elege-a Como suprema flor, de entre todas primeira, -
Rival de Vós que sois como a Vitória-Régia.