Corvo - XII Últimas Rimas · Capítulo 44 de 49
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Corvo - XII

Como apesar de tudo a calma conseguia Fazer-me d'alma vir, do lábio, um riso, à tona, Chegando-me ao portal, do corvo hospedaria, Sentei-me e recostei-me a uma antiga poltrona.

Frente à frente do corvo, a alma já me sorria E toda entregue a mim, como quem se abandona, Busco ansioso indagar que novas me traria O fúnebre viajor que inda hoje me emociona!

Procuro compreender qual o escondido gozo Desse vil e sinistro arauto tenebroso Que em dois termos resume os seus vis cabedais; Que os seus vis cabedais de ciência e de linguagem Resume ao exibir-me a tétrica plumagem Crocitando e grasnando a frase: Nunca mais!...

XIII

Deixo-me após ficar como quem se extasia Entre alucinação e funda conjetura, Ante a luz da razão e a névoa da utopia, Sem nada a me apoiar a mente mal segura.

Nada mais pronunciei, nem um som se me ouvia E como a um ferro em brasa, a uma horrível tortura, Da ave ao olhar hostil e à pérfida ironia N'alma entrou-me o terror que as almas transfigura.

Mas a um torpor de quem vagamente ressona, Recosto-me ao espaldar dessa velha poltrona Que eu para ali trouxera em ânsias infernais, E vejo a luz brilhar sobre o roxo veludo Em que por tanta vez d'Ela o semblante mudo Brilhou, mas nunca mais brilhará! Nunca mais!

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