Nossa Velhice
Canção musicada por Alberto Nepomuceno Dizes-te velha, entretanto,
Em ti encontro, cada dia,
Um novo, inédito encanto,
Mais viço, mais louçania.
Em cada ano que se passa Eis a diferença nossa:
Minha alma envelhece baça
A tua, em brilho, remoça.
Seguimos da vida o trilho
Tu remoçada deveras,
Eu como um velho casquilho
Saudoso das primaveras.
Nossas almas, se me esforço
Por vê-Ias, a vida alcança,
A minha como o remorso,
A tua como a esperança.
Tens do tempo a cada arranco
No olhar um novo alvoroço,
E a cada cabelo branco
No lábio um riso mais moço,
E se os cabelos de prata
Soltas perdoando algum crime
Por sobre mim se encascara
A água lustral que redime.
Da terra no seio forte,
Os lyrios matam os goivos.
Marcharemos para a morte,
Como se fôssemos noivos.
VELHO TEMA, NOVO TEMA
Foi no mar, foi na terra ou no espaço infinito Que se ouviram, a errar, como errabundas boêmias, Eu uivo doloroso e aterrorante grito, Do ciúme e da paixão as duas vozes gêmeas-
Ambas tendo por berço um coração aflito, A dúvida as gerou e em suas garras preme-as.
Mas livres, afinal, do comprimente atrito Ei-las, soltas, a urrar em ditas e blasfêmias.
Em grotesco clangor ou trágico zabumba, Vendo Deus no demônio e o horrendo no sublime, Ante a fúria em que vão, não há quem não sucumba.
Passam, sem força haver que as dome ou desanime, Abatendo rivais e abrindo a própria tumba, Aos clarins da vingança e às trombetas do crime.
UMA CARTA
Félix
Tu, que estas linhas, com teu nome encimas, Deixa que um grito de entusiasmo parta Da larva humilde, a efêmera lagarta Que não tem a haste flórea a que te arrimas.
No seu berço de imagens e de rimas, Tenho ante os olhos a inocente Marta, E o olhar, de olhá-la, não se cansa e farta, Tal o encanto dos versos com que a animas.
Todo o fel de que andei sempre embebido No meu desventurado amor paterno,
Fez-se mel pelo mel neles contido.
Enterneces e ameigas, meigo e terno, Um coração de pai desiludido:
Beija o teu céu, eu beijo o meu inferno...