Numa Lápide
Qual se teu filho fora eu me acabrunho E, de mágoa, a falar-te mal me atrevo.
Aceita, entanto, o humilde testemunho Do quanto foste meu sagrado enlevo.
Fosse-me dado, de cinzel em punho
Talhar o liso mármore em relevo,
E eu daria da pedra o eterno cunho, Às estrofes que em pranto e sangue escrevo.
Sei que não cabem nestes sons dispersos, O pranto em que esta angústia não se acalma, E o sangue em que tais sons morrem imersos.
Não cabe dentro de votiva palma
Nem na estreiteza de mesquinhos versos, O infinito de dor que tenho n'alma!...
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UM ÁLBUM
Deste álbum, se até aqui, senhora minha, Chegar o vosso olhar, tende piedade De quem do fim da vida se avizinha Nuns derradeiros versos de saudade.
Saudade, não da vida árdua e mesquinha Que atravessei desde a primeira idade, Porém do tempo em que o meu verso tinha O audacioso vigor da mocidade.
Ai, nesse tempo, os vossos dons divinos, Em vez de versos trôpegos e mancos, Teriam senhoriais alexandrinos.
Hoje a musa caduca em vãos arrancos, Anda como eu, exausta, aos desatinos, Toda coberta de cabelos brancos.