A Um Possesso - I
Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena, Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras.
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.
Sangra a etérea região, sangra a região terrena E o horizonte que as une, inda mais dilaceras.
As próprias linhas - louco! - em que a sânie verberas, Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.
Mas se ao céu e se à terra e se ao horizonte e ao verso, Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas E nela vês tombar e fundir-se o universo, Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso Na própria irradiação das tuas próprias mazelas.
II
Não te busco nem quero ouvir-te a voz pressaga Sombra de um sonho mau, esqueleto de um sonho!
Não dás vida e não tens a vida que propaga A orgulhosa altivez que na humildade ponho.
Doce orgulho o de ser humilde e igual à vaga Que após, altiva, inflar o seio ao mar medonho, Morre escrava no vil beijo que a areia apaga Como eu quando de ser soberbo me envergonho.
A trama que teceste habilmente, desato-a!
Que te vale à vaidade esse fingido apreço, Ou fingido temor à tua audácia fátua-
Do medo que me impões, eu, feliz, me envaideço, Ó inofensivo leão de projeto de estátua!
Garras de papelão, mandíbulas de gesso!