Corvo - I
(Edgar Poe)
À memória de Machado de Assis
O inexcedido e inexcedível tradutor do genial poema de Edgar Poe, consagro esta pálida paráfrase que em nada se aproxima e jamais pretendeu aproximar-se da imorredoura tradução feita pelo Mestre dos Mestres.
Emílio de Menezes
Desta amarga existência em certo, amargo dia, A hora da meia noite, augural e profana.
Eu, de velha doutrina, as páginas relia Curvo ao peso do sono e da fadiga insana.
Mal do meu pensamento a direção seguia Por essa hora de horror em que da treva emana Toda em funda hediondez, desoladora e fria, Da atra recordação, a atra saudade humana.
Foi assim que senti, do meu triste aposento, Como um leve sussurro a passar, lento e lento, E uma leve pancada a bater nos umbrais.
Disse comigo: é alguém que pela noite fora, Vem, retarda visita, e retarda-se agora...
A bater mansamente à porta, nada mais!...