A Um Possesso - V
Passas. Ouço o rugir do vento que te leva.
Quando, da Arte, me ajoelho ao místico delubro, Tu vens, lúbrico harfango a crocitar na treva.
E o tarado eu diviso, o impotente eu descubro.
Alimenta-te a inveja. O despeito te ceva.
O ódio deu-te a voz rouca e deu-te esse olhar rubro, Esse único clarão que do teu ser se eleva E que eu, do meu orgulho, ao régio manto encubro.
Anda! Beija-me aos pés a clâmide inconsútil.
Eu, piedoso, ta estendo ao desespero inerme.
Tu não és venenoso, o teu esforço é inútil.
O teu dente sutil não me passa a epiderme, Ó fonte do banal, ó vertente do fútil!
Larva, tens o perdão. Tens a piedade, verme!
SOBRE O TÚMULO DE UMA MÃE
Se alguém compreende a mágoa que te oprime Não n'a compreende mais do que a compreendo.
Mágoa que o pranto, às vezes, não n'a exprime Mas que num riso, às vezes, se está vendo!...
Deixa, porém, que paire a alma sublime Daquela santa sobre o mundo horrendo!
Que ela te ampare contra o mal e o crime, Ao teu futuro bênçãos estendendo.
Vejo-te a rir, amigo, mas no brilho Do teu olhar eu leio todo o inferno Do teu celeste coração de filho!
Ri comigo! Eu também num riso eterno Sigo da vida o doloroso trilho,
Sem o guia imortal do amor materno!