Capítulo II: Bloco 1 O Direito à Preguiça: Tradução Literunico · Capítulo 36 de 37
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Capítulo II: Bloco 1

Em 1770, apareceu em Londres um escrito anônimo intitulado Ensaio sobre o comércio e a indústria. Na época, causou certo ruído. Seu autor, grande filantropo, indignava-se porque “a plebe manufatureira da Inglaterra meteu na cabeça a ideia fixa de que, na qualidade de ingleses, todos os indivíduos que a compõem têm, por direito de nascimento, o privilégio de ser mais livres e independentes que os operários de qualquer outro país da Europa.”

Essa ideia podia ter alguma utilidade para os soldados, por estimular-lhes a bravura. Para os operários das manufaturas, quanto menos impregnados dela estivessem, melhor seria para eles mesmos e para o Estado. Operários nunca deveriam considerar-se independentes de seus superiores. Seria extremamente perigoso encorajar semelhantes entusiasmos em um Estado comercial como aquele, onde talvez sete oitavos da população têm pouca ou nenhuma propriedade. A cura não estaria completa enquanto os pobres da indústria não se resignassem a trabalhar seis dias pela mesma soma que agora ganhavam em quatro. Assim, quase um século antes de Guizot, pregava-se abertamente em Londres o trabalho como freio às nobres paixões do homem. “Quanto mais meus povos trabalharem, menos vícios haverá”, escrevia Napoleão de Osterode, em 5 de maio de 1807. “Sou a autoridade, e estaria disposto a ordenar que, no domingo, passada a hora dos ofícios, as lojas fossem abertas e os operários devolvidos ao trabalho.” Para extirpar a preguiça e curvar os sentimentos de orgulho e independência que ela gera, o autor do Ensaio sobre o comércio propunha encarcerar os pobres em casas ideais de trabalho, que se tornariam “casas de terror”. Ali se trabalharia quatorze horas por dia, retirado o tempo das refeições, restariam doze horas de trabalho plenas e inteiras. Doze horas de trabalho por dia: eis o ideal dos filantropos e moralistas do século XVIII.

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