Capítulo III: Bloco 3
Porque a classe operária, com sua boa-fé simplória, deixou-se doutrinar, porque, com sua impetuosidade nativa, precipitou-se às cegas no trabalho e na abstinência, a classe capitalista viu-se condenada à preguiça e ao gozo forçados, à improdutividade e ao superconsumo. Entretanto, se o sobretrabalho do operário lhe fere a carne e lhe aperta os nervos, ele também é fecundo em dores para o burguês.
A abstinência a que se condena a classe produtiva obriga os burgueses a se consagrarem ao superconsumo dos produtos que ela manufatura desordenadamente. No começo da produção capitalista, há um ou dois séculos, o burguês era um homem regrado, de costumes razoáveis e pacíficos, contentava-se com sua mulher, ou quase, bebia apenas quando tinha sede e comia apenas quando tinha fome. Deixava aos cortesãos e às cortesãs as nobres virtudes da vida devassa. Hoje todo filho de enriquecido julga-se obrigado a desenvolver a prostituição e a mercurializar o próprio corpo para dar uma finalidade aos labores impostos pelos operários das minas de mercúrio, todo burguês se empanturra de capões trufados e de Laffite transportado por mar, para encorajar os criadores de La Flèche e os vinhateiros do Bordelês. Nesse ofício, o organismo se arruína rapidamente, os cabelos caem, os dentes se desprendem, o tronco se deforma, o ventre se empanturra, a respiração se embaraça, os movimentos se tornam pesados, as articulações se anquilosam, as falanges se nodulam. Outros, magros demais para suportar as fadigas da devassidão, porém dotados da protuberância do prudhomismo, ressecam o cérebro, à maneira dos Garnier da Economia política e dos Acollas da filosofia jurídica, elucubrando grossos livros soporíferos para ocupar os lazeres dos tipógrafos e dos impressores.