Apêndice: Bloco 3
Proletários, embrutecidos pelo dogma do trabalho, ouvis a linguagem desses filósofos que vos escondem com tão ciumento cuidado? Um cidadão que dá seu trabalho por dinheiro degrada-se ao nível dos escravos, comete um crime que merece anos de prisão. A tartufaria cristã e o utilitarismo capitalista não haviam pervertido esses filósofos das repúblicas antigas, professando para homens livres, falavam ingenuamente seu pensamento. Platão e Aristóteles, esses pensadores gigantes, de cuja canela nossos Cousin, nossos Caro, nossos Simon só podem aproximar-se erguendo-se na ponta dos pés, queriam que os cidadãos de suas Repúblicas ideais vivessem no maior lazer, pois, acrescentava Xenofonte, “o trabalho leva todo o tempo, e com ele não se tem nenhum lazer para a República e os amigos.” Segundo Plutarco, o grande título de Licurgo, “o mais sábio dos homens”, à admiração da posteridade, era ter concedido lazeres aos cidadãos da República ao lhes interditar o exercício de qualquer ofício[28].
[28] Platão, _República_ V e _As leis_ VIII, Aristóteles, _República_ II e VII, Xenofonte, _Econômico_ IV e VI, Plutarco, _Vida de Licurgo_.
Responderão, porém, os Bastiat, os Dupanloup e os Beaulieu da moral cristã e capitalista: esses pensadores, esses filósofos preconizavam a escravidão! Perfeito, poderia ser de outro modo, dadas as condições econômicas e políticas de sua época? A guerra era o estado normal das sociedades antigas, o homem livre devia consagrar seu tempo a discutir as leis do Estado e velar por sua defesa, os ofícios eram então primitivos e grosseiros demais para que, praticando-os, se pudesse exercer o ofício de soldado e cidadão, a fim de possuir guerreiros e cidadãos, os filósofos e legisladores deviam tolerar escravos em suas repúblicas heroicas. Os moralistas e economistas do Capitalismo, por sua vez, pregam a escravidão moderna, o salariado. E a que homens a escravidão capitalista dá lazeres? A Rothschild, a Germiny, a Alphonses, inúteis e nocivos, escravos de seus vícios e de seus domésticos.