Capítulo III: Bloco 15
Dura e longa vingança se tirará dos moralistas que perverteram a natureza humana, dos beatos, dos devotos, dos hipócritas “e outras tais seitas de gente que se disfarçaram como máscaras para enganar o mundo. Pois, dando a entender ao popular comum que só se ocupam de contemplação e devoção, de jejuns e maceração da sensualidade, salvo verdadeiramente para sustentar e alimentar a pequena fragilidade de sua humanidade, ao contrário fazem boa mesa, Deus sabe qual! _et Curios simulant sed Bacchanalia vivunt_[21]. Podeis lê-lo em letra grossa e iluminura de seus focinhos vermelhos e ventres em forma de polaina, salvo quando se perfumam de enxofre[22].” Nos dias das grandes alegrias populares, quando, em lugar de engolir poeira como nos 15 de agosto e nos 14 de julho do burguesismo, comunistas e coletivistas farão andar os frascos, trotar os presuntos e voar os copos, os membros da Academia de Ciências Morais e Políticas, os sacerdotes de toga longa e curta da igreja econômica, católica, protestante, judaica, positivista e livre-pensadora, os propagadores do malthusianismo e da moral cristã, altruísta, independente ou submissa, vestidos de amarelo, segurarão a vela até queimar os dedos e viverão em fome junto às mulheres gaulesas e às mesas carregadas de carnes, frutos e flores, e morrerão de sede junto aos tonéis abertos. Quatro vezes por ano, na mudança das estações, como os cães dos amoladores, serão encerrados em grandes rodas e durante dez horas serão condenados a moer vento. Os advogados e os legistas sofrerão a mesma pena.
[21] Eles simulam Cúrios e vivem como nas Bacanais, Juvenal.
[22] _Pantagruel_, Livro II, capítulo LXXIV.