Capítulo II: Bloco 4
Nosso tempo, dizem, é o século do trabalho, de fato, é o século da dor, da miséria e da corrupção. E, contudo, os filósofos, os economistas burgueses, desde o penosamente confuso Auguste Comte até o ridiculamente claro Leroy-Beaulieu, os homens de letras burgueses, desde o charlatanescamente romântico Victor Hugo até o ingenuamente grotesco Paul de Kock, todos entoaram cânticos nauseantes em honra do deus Progresso, filho primogênito do Trabalho. Ao ouvi-los, a felicidade ia reinar sobre a terra, sua vinda já se anunciava. Eles remexiam, nos séculos passados, a poeira e as misérias feudais para trazer de lá fundos escuros contra os quais fizessem brilhar as delícias do tempo presente.
Como cansam esses saciados, esses satisfeitos, há pouco ainda membros da criadagem dos grandes senhores, hoje criados de pena da burguesia e largamente providos de renda, como cansam quando nos apresentam, sem descanso, o camponês do retórico La Bruyère. Pois bem, eis agora o quadro brilhante dos prazeres proletários no ano do Progresso capitalista de 1840, pintado por um dos seus, o Dr. Villermé, membro do Instituto, o mesmo que, em 1848, participou daquela sociedade de sábios formada por Thiers, Cousin, Passy e Blanqui, o acadêmico, sociedade encarregada de espalhar entre as massas as tolices da economia e da moral burguesas.
O Dr. Villermé fala da Alsácia manufatureira, da Alsácia dos Kestner e dos Dollfus, essas flores da filantropia e do republicanismo industriais. Antes que o doutor erga diante de nós o quadro das misérias proletárias, ouçamos um manufatureiro alsaciano, o Sr. Th. Mieg, da casa Dollfus, Mieg e Cia., descrevendo a situação do artesão da antiga indústria: “Em Mulhouse, há cinquenta anos, em 1813, quando a moderna indústria mecânica nascia, os operários eram todos filhos do solo, habitavam a cidade e as aldeias vizinhas e possuíam quase todos uma casa, muitas vezes também um pequeno campo.” Era a idade de ouro do trabalhador.
A indústria alsaciana, naquele tempo, ainda estava longe de inundar o mundo com seus panos de algodão e de encher de milhões seus Dollfus e seus Kœchlin. Vinte e cinco anos depois, quando Villermé visitou a Alsácia, o minotauro moderno, a oficina capitalista, já conquistara o país, em sua voracidade por trabalho humano, arrancara os operários de seus lares para torcê-los melhor e extrair deles o trabalho que continham. Aos milhares, os operários corriam ao apito da máquina. Villermé informa que grande número deles, cinco mil em dezessete mil, era forçado, pela carestia dos aluguéis, a alojar-se nas aldeias vizinhas. Alguns moravam a duas léguas, até duas léguas e um quarto, da manufatura em que trabalhavam.