Capítulo III: Bloco 6
Uma vez acocorada na preguiça absoluta e desmoralizada pelo gozo forçado, a burguesia, apesar do mal que isso lhe causava, acomodou-se a seu novo gênero de vida. Encarava qualquer mudança com horror. A visão das miseráveis condições de existência aceitas com resignação pela classe operária, e a da degradação orgânica gerada pela paixão depravada do trabalho, aumentavam ainda mais sua repulsa por toda imposição de trabalho e por toda restrição de gozos.
Foi precisamente então que, sem levar em conta a desmoralização que a burguesia impusera a si mesma como um dever social, os proletários meteram na cabeça infligir o trabalho aos capitalistas. Ingênuos, tomaram a sério as teorias dos economistas e dos moralistas sobre o trabalho e cingiram os rins para impor sua prática aos capitalistas. O Proletariado arvorou a divisa: _Quem não trabalha, não come_, Lyon, em 1831, levantou-se por _chumbo ou trabalho_, os insurgentes de Junho de 48 reclamaram o _Direito ao trabalho_, os federados de março de 1871 declararam seu levante a _Revolução do trabalho_.
A esses desencadeamentos de furor bárbaro, destruidores de todo gozo e de toda preguiça burgueses, os capitalistas só podiam responder pela repressão feroz, contudo sabem que, se puderam comprimir essas explosões revolucionárias, ainda assim não afogaram no sangue de seus massacres gigantescos a absurda ideia do Proletariado de querer infligir o trabalho às classes ociosas e saciadas. É para desviar esse infortúnio que se cercam de pretorianos, policiais, magistrados e carcereiros mantidos numa improdutividade laboriosa. Já não se pode conservar ilusão sobre o caráter dos exércitos modernos: eles se mantiveram permanentes apenas para comprimir o “inimigo interior”, é assim que os fortes de Paris e de Lyon foram construídos para esmagar a cidade se ela se revoltasse, em lugar de defendê-la contra o estrangeiro. Se fosse preciso um exemplo sem réplica, citemos o exército da Bélgica, esse país de Cocanha do Capitalismo, sua neutralidade é garantida pelas potências europeias e, entretanto, seu exército é um dos mais fortes proporcionalmente à população. Os gloriosos campos de batalha do bravo exército belga são as planícies do Borinage e de Charleroy, é no sangue dos mineiros e dos operários desarmados que os oficiais belgas mergulham suas espadas e recolhem suas dragonas. Nas nações europeias, o que se abriga sob o nome de exército nacional são exércitos mercenários: protegem os capitalistas contra a fúria popular que desejaria condená-los a dez horas de mina ou de fiação.