Capítulo III: Bloco 2
Para que a concorrência entre o homem e a máquina tivesse livre curso, os proletários aboliram as sábias leis que limitavam o trabalho dos artesãos nas antigas corporações, suprimiram os dias festivos. Como os produtores de então trabalhavam apenas cinco dias em sete, acreditariam eles, como dizem os economistas mentirosos, que viviam de ar e água fresca? Nada disso. Tinham lazer para provar as alegrias da terra, para amar e rir, para banquetear-se alegremente em honra do grande deus da Preguiça. A Inglaterra sombria, presa ao protestantismo, chamava-se então “alegre Inglaterra”, Merry England.
Rabelais, Quevedo, Cervantes e os autores desconhecidos dos romances picarescos nos deixam com água na boca com suas pinturas daqueles banquetes monumentais, saboreados então entre duas batalhas e duas devastações, nos quais tudo corria em grandes escudelas. Jordaens e a escola flamenga fixaram essas festas em suas telas jubilantes. Sublimes estômagos gargantuescos, que foi feito de vós? Sublimes cérebros que abarcáveis todo o pensamento humano, que foi feito de vós?
Estamos muito degenerados e muito diminuídos. A vaca raivosa, a batata, o vinho tingido de fucsina e o schnaps prussiano, sabiamente combinados com o trabalho forçado, debilitaram nossos corpos e limitaram nossos espíritos. E é justamente quando o homem estreita o estômago e a máquina alarga sua produtividade que os economistas nos pregam a teoria malthusiana, a religião da abstinência e o dogma do trabalho. Seria preciso arrancar-lhes a língua e jogá-la aos cães.