Capítulo III: Bloco 14
Há mais. A fim de encontrar trabalho para todas as nulidades da sociedade atual, a fim de deixar o aparelhamento industrial desenvolver-se indefinidamente, a classe operária deverá, como a burguesia, violentar seus gostos abstinentes e desenvolver indefinidamente suas capacidades consumidoras. Em vez de comer por dia uma ou duas onças de carne coriácea, quando a come, comerá suculentos bifes de uma ou duas libras, em vez de beber moderadamente vinho ruim, mais católico que o papa, beberá a grandes e profundas goladas bordeaux e borgonha sem batismo industrial, deixando a água aos animais.
Os proletários meteram na cabeça infligir aos capitalistas dez horas de forja e refinaria, aí está a grande falta, a causa dos antagonismos sociais e das guerras civis. Será preciso proibir o trabalho em lugar de impô-lo. Os Rothschild, os Say serão admitidos a provar que foram, durante toda a vida, perfeitos vadios, e, se jurarem querer continuar a viver como perfeitos vadios apesar do arrastamento geral para o trabalho, serão registrados e receberão todas as manhãs, em suas respectivas prefeituras, uma moeda de vinte francos para seus pequenos prazeres. As discórdias sociais se dissiparão. Rentistas, capitalistas, todos os primeiros, aderirão ao partido popular quando estiverem convencidos de que, longe de lhes querer mal, se quer ao contrário desembaraçá-los do trabalho de superconsumo e desperdício que os oprimiu desde o nascimento. Quanto aos burgueses incapazes de provar seus títulos de vadios, serão deixados seguir seus instintos: existem ofícios repugnantes em número suficiente para acomodá-los. Dufaure limparia as latrinas públicas, Galliffet sangraria porcos sarnentos e cavalos com mormo, os membros da comissão de indultos, enviados a Poissy, marcariam os bois e carneiros destinados ao abate, os senadores, ligados às pompas fúnebres, fariam papel de agentes funerários. Para outros, encontrar-se-iam ofícios ao alcance de sua inteligência. Lorgeril e Broglie arrolhariam garrafas de champanhe, porém seriam amordaçados para que não se embriagassem, Ferry, Freycinet e Tirard destruiriam percevejos e vermes nos ministérios e outras hospedarias públicas, seria preciso, entretanto, pôr os dinheiros públicos fora do alcance dos burgueses, por medo dos hábitos adquiridos.