Apêndice: Bloco 1
## Apêndice
Nossos moralistas são gente bem modesta, se inventaram o dogma do trabalho, duvidam de sua eficácia para tranquilizar a alma, alegrar o espírito e conservar o bom funcionamento dos rins e outros órgãos, querem experimentar seu uso sobre o povo, _in animâ vili_, antes de voltá-lo contra os capitalistas, de quem têm a missão de explicar e autorizar os vícios.
Filósofos de quatro vinténs a dúzia, por que vos quebrar assim a cabeça a elucubrar uma moral cuja prática não ousais aconselhar a vossos mestres? Vosso dogma do trabalho, do qual tanto vos orgulhais, quereis vê-lo escarnecido, odiado? Abramos a história dos povos antigos e os escritos de seus filósofos e legisladores.
“Não saberia afirmar”, diz o pai da história, Heródoto, “se os gregos tomaram dos egípcios o desprezo que têm pelo trabalho, porque encontro o mesmo desprezo estabelecido entre os trácios, os citas, os persas, os lídios, em uma palavra, porque entre a maior parte dos bárbaros aqueles que aprendem as artes mecânicas, e até seus filhos, são vistos como os últimos dos cidadãos... Todos os gregos foram educados nesses princípios, particularmente os lacedemônios[23].”
[23] _Heródoto_, tomo II, tradução Larcher, 1786.
“Em Atenas, os cidadãos eram verdadeiros nobres que deviam ocupar-se apenas da defesa e da administração da comunidade, como os guerreiros selvagens de que tiravam sua origem. Devendo, portanto, ficar livres todo o tempo para velar, por sua força intelectual e corporal, pelos interesses da República, encarregavam os escravos de todo trabalho. Do mesmo modo, na Lacedemônia, as próprias mulheres não deviam fiar nem manejar o tear, para não decair de sua nobreza[24].”
[24] Biot, _De l’abolition de l’esclavage ancien en Occident_, 1840.