Capítulo III: Bloco 7
Assim, ao apertar o próprio ventre, a classe operária desenvolveu desmedidamente o ventre da burguesia, condenada ao superconsumo. Para ser aliviada em seu penoso trabalho, a burguesia retirou das classes operárias uma massa de homens muito superior àquela que permanecia consagrada à produção útil, e a condenou por sua vez à improdutividade e ao superconsumo. Contudo, esse rebanho de bocas inúteis, apesar de sua voracidade insaciável, ainda não basta para consumir todas as mercadorias que os operários, embrutecidos pelo dogma do trabalho, produzem como maníacos, sem querer consumi-las e sem sequer pensar se haverá gente para consumi-las.
Diante dessa dupla loucura dos trabalhadores, a de se matar de sobretrabalho e a de vegetar na abstinência, o grande problema da produção capitalista deixa de ser encontrar produtores e decuplicar suas forças, passa a ser descobrir consumidores, excitar seus apetites e criar-lhes necessidades artificiais. Visto que os operários europeus, tremendo de frio e de fome, recusam-se a usar os panos que fabricam e a beber os vinhos que colhem, os pobres fabricantes, como desvairados, devem correr aos antípodas em busca de quem os vista e de quem os beba: são centenas de milhões e bilhões que a Europa exporta todos os anos aos quatro cantos do mundo para povos que nada têm a fazer com isso[17]. Os continentes explorados já não são vastos o bastante, são precisos países virgens. Os fabricantes da Europa sonham dia e noite com a África, com o lago Saariano, com a estrada de ferro do Sudão, acompanham com ansiedade os progressos dos Livingstone, dos Stanley, dos du Chaillu, dos de Brazza, de boca aberta, escutam as histórias mirabolantes desses corajosos viajantes. Quantas maravilhas desconhecidas encerra o “Continente negro”! Campos plantados de dentes de elefante, rios de óleo de coco arrastando palhetas de ouro, milhões de traseiros negros, nus como a face de Dufaure ou de Girardin, à espera de panos de algodão para aprender a decência, garrafas de schnaps e bíblias para conhecer as virtudes da civilização.
[17] Dois exemplos: o governo inglês, para agradar aos camponeses indianos que, apesar das fomes periódicas que desolam o país, se obstinam em cultivar a papoula em lugar do arroz ou do trigo, teve de empreender guerras sangrentas a fim de impor ao governo chinês a livre introdução do ópio indiano. Os selvagens da Polinésia, apesar da mortalidade que daí resultou, tiveram de se vestir e se embriagar à inglesa, para consumir os produtos das destilarias da Escócia e das oficinas de Manchester.