Capítulo III: Bloco 4
As mulheres do mundo vivem uma vida de mártir. Para experimentar e fazer valer os trajes feéricos que as costureiras se matam a construir, do anoitecer ao amanhecer elas fazem vaivém de um vestido a outro, durante horas, entregam sua cabeça vazia aos artistas capilares que, a qualquer preço, querem saciar sua paixão pelos andaimes de postiços. Apertadas em seus espartilhos, estreitas em suas botinas, decotadas a ponto de fazer corar um sapador, elas giram noites inteiras em seus bailes de caridade a fim de recolher alguns trocados para o pobre mundo. Santas almas!
Para cumprir sua dupla função social de não-produtor e superconsumidor, a burguesia teve de violentar seus gostos modestos, perder seus hábitos laboriosos de dois séculos atrás e entregar-se ao luxo desenfreado, às indigestões trufadas e às devassidões sifilíticas, precisou ainda subtrair ao trabalho produtivo uma enorme massa de homens para obter auxiliares.