Livro III — Bloco 8 A Consolação da Filosofia — Tradução Literunico · Capítulo 15 de 38
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Livro III — Bloco 8

Nota editorial. Tradução/adaptação editorial Literunico em português, preparada a partir da tradução inglesa em domínio público de H. R. James para The Consolation of Philosophy. Este bloco continua o Livro III, fazendo a passagem da falsa felicidade à unidade da felicidade verdadeira. Boécio faleceu em 524; H. R. James faleceu em 1931. A base textual está livre no Brasil pelo critério de vida do autor/tradutor mais 70 anos.

Livro III — Bloco 8

“De fato”, disse eu, “vejo claramente que nem a independência se encontra na riqueza, nem o poder na soberania, nem a reverência nas dignidades, nem a fama na glória, nem a verdadeira alegria nos prazeres.”

“Discerniste também as causas pelas quais isso é assim?”

“Parece-me ter algum vislumbre, mas gostaria de aprender mais amplamente contigo.”

“A razão está bem à mão. Aquilo que é simples e indivisível por natureza, o erro humano separa; e transforma o verdadeiro e perfeito em falso e imperfeito.”

“Imaginas que aquilo a que nada falta possa carecer de poder?”

“Certamente não.”

“Correto. Pois, se há em alguma coisa qualquer fraqueza de força, necessariamente haverá nela necessidade de proteção externa.”

“Assim é.”

“Portanto, a natureza da independência e a do poder são uma só e a mesma.”

“Parece que sim.”

“E pensas que algo dessa natureza pode ser olhado com desprezo? Ou antes é, entre todas as coisas, sumamente digno de veneração?”

“Não pode haver dúvida quanto a isso.”

“Acrescentemos, então, a reverência à independência e ao poder, e concluamos que essas três coisas são uma só.”

“Devemos fazê-lo, se quisermos reconhecer a verdade.”

“Pensas, então, que essa união de qualidades seja obscura e sem distinção, ou antes famosa em todo renome? Considera: poderia carecer de renome aquilo que concordamos não carecer de nada, ser supremo em poder e inteiramente digno de honra? Se não pudesse conceder isso a si mesmo, pareceria de certo modo pobre em estima.”

“Não posso deixar de reconhecer que, sendo o que é, essa união de qualidades também é justamente famosa.”

“Segue-se, então, que devemos admitir que o renome não é diferente das outras três coisas.”

“Segue-se”, respondi.

“Aquilo, portanto, que nada necessita fora de si; que pode realizar todas as coisas por sua própria força; que desfruta de fama e impõe reverência: não deve evidentemente ser também plenamente coroado de alegria?”

“Na verdade”, disse eu, “não consigo conceber como qualquer tristeza poderia entrar em tal estado. Por isso devo reconhecer que ele é cheio de alegria, ao menos se nossas conclusões anteriores permanecem firmes.”

“Então, pelas mesmas razões, isto também é necessário: independência, poder, renome, reverência e doçura do deleite são diferentes apenas no nome; em substância, não diferem umas das outras.”

“É assim”, disse eu.

“Isso, que é uno e simples por natureza, a perversidade humana separa. E, tentando conquistar uma parte daquilo que não tem partes, deixa de alcançar não apenas essa parte — pois partes não existem — mas também o todo, ao qual nem sonha aspirar.”

“Como assim?”, perguntei.

“Aquele que busca riquezas para escapar da necessidade não se preocupa com o poder. Prefere uma condição baixa e humilde, e ainda se priva de muitos prazeres caros à natureza para não perder o dinheiro que ganhou. Mas, desse modo, nem sequer alcança independência: torna-se fraco, sem força, atormentado por aflições, baixo e desprezado, enterrado na obscuridade.”

“Aquele, por sua vez, que tem sede apenas de poder desperdiça a riqueza, despreza o prazer e julga fama e posição igualmente sem valor se não vierem acompanhadas de poder. Mas vês de quantas maneiras também seu estado é defeituoso. Às vezes acontece que lhe faltam as coisas necessárias, que é roído por ansiedades e, como não consegue livrar-se desses incômodos, até deixa de possuir aquele poder que era todo o seu fim e objetivo.”

“Do mesmo modo podemos fazer a conta no caso da posição, da glória ou do prazer. Pois, como cada uma dessas coisas, tomada separadamente, é idêntica às demais, quem busca qualquer uma delas sem as outras nem sequer se apodera daquela que tomou como alvo.”

“Então”, disse eu, “que resta?”

“Suponhamos que alguém deseje obtê-las todas juntas. Ele deseja, de fato, a felicidade inteira. Mas irá encontrá-la nessas coisas que, como já provamos, são incapazes de conceder o que prometem?”

“Não, de modo nenhum”, respondi.

“Então a felicidade certamente não deve ser procurada nessas coisas que, separadamente, se acredita oferecerem algum dos bens mais desejáveis.”

“Não deve”, admiti. “Nenhuma conclusão poderia ser mais verdadeira.”

“Assim, a forma e as causas da falsa felicidade estão diante de teus olhos. Agora volta teu olhar para o outro lado; ali verás imediatamente a verdadeira felicidade que prometi.”

“Sim, ela é clara até para os cegos”, respondi. “Tu a apontaste agora mesmo ao explicar as causas da falsa. Pois, se não me engano, a felicidade verdadeira e perfeita é aquela que coroa alguém com a união de independência, poder, reverência, renome e alegria.”

“E, para provar-te com que atenção te escutei: visto que todas essas coisas são uma só, sei sem dúvida que aquilo que pode conceder verdadeiramente uma delas é felicidade plena e completa.”

“Feliz és tu, meu aluno, nessa convicção. Só deves acrescentar uma coisa.”

“Qual?”, perguntei.

“Pensas que exista, entre estas coisas mortais e perecíveis, algo capaz de produzir tal estado?”

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